OS FEIOS SÃO BELOS

feiosbelos

OS FEIOS SÃO BELOS

A menina de coxas desproporcionais
e espinhas recém-curadas não sabe,
mas está sendo observada.

Seus olhos presos ao chão,
procurando um qualquer coisa
e os cabelos deliciosamente desgrenhados;
ela nem imagina, nem quer saber,
que está sendo observada,
porque se acha feia demais
pra que isso aconteça.

Os feios são belos
pois deixam suas afetações
em casa.
Sabe aquela vontade de ser visto,
notado, amado, invejado?
Pois bem, os feios deixam essas coisas
em casa.

Então eles, os feios,
enfiam suas caras injustamente desprezadas
entre cabelos mal cuidados,
travesseiros mal amados
e noites mal dormidas,
pois o peso da sociedade dita bela
e o bafo da pose dos ditos lindos
invadem o quarto dos feios com tanta força
que fica muito difícil dormir
com a barulheira
desses ditos
belos.

Os belos são barulhentos,
pavões gritantes de umbigos enormes,
“Vejam-me!”,
“Admirem-me!”,
“Olhem-me fazendo pose no Instagram!”;
as penas no chão acusam:
aqui esteve o belo.

Louvemos a beleza dos feios, dos imperfeitos,
daqueles que se levantam da cama e, sem artificialismos,
metem a cara na rua e pregam os olhos no chão.

Olhemos os feios.

E a menina de gestos oprimidos
do começo do poema,
aquela toda envergonhada,
meio que se punindo por ser quem é,
lembra dela?

Foi-se embora sem saber
que estava sendo admirada.


- Michel Consolação



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PREGUIÇA

preguica

POESIA, CIÊNCIA DA PREGUIÇA

Eu não sei nada
sobre ciência

Pra esse tipo de coisa
eu realmente não tive
paciência.

Apesar de tudo,
até que sou um cara
bem científico.
Tenho uma boa relação
com o magnífico.

E olha que eu nem sei
fazer conta.
Só vivo neste eterno
faz-de-conta.

Ainda, acho-me mais cientista
do que muitos outros
que se dizem assim.

É que eu acho mesmo
que tudo na vida
é só questão de vista.

Poetas gostam muito de falar
esse tipo de coisa.

Saber ver.

Vocês já leram isso
por aí.

O poeta
é um cientista
com preguiça.

- Michel Consolação


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adjetivo

adjetivando

olha que suave beleza. suave: está aí um adjetivo que eu uso muito. e terei que usar mais uma vez. mas sem usar, pois eu já falei aí. então está usado. o adjetivo. você é muito mais do que esses adjetivos. nós somos mais. por que nos adjetivamos tanto? eu sei lá, eu tento puxar da memória, mas juro que não lembro a definição exata do termo. e eu fico aqui, adjetivando mesmo assim. isso não é vida. isso é mentira. eu vejo a linguagem tomando conta de tudo. ela está infiltrada em todas as atividades humanas. é isso que nos faz humanos? ah, claro, olha o poeta falando mal da linguagem. tiro no pé, poeta. cuidado. não quero falar mal de nada. eu tiro o pé. e também não quero adjetivar. e também preciso admitir que às vezes me bate uma preguiça cósmica e que me faz pensar duas vezes sobre escrever ou não. mas é por pouco tempo. pois eu logo abro um caderno e vejo a preguiça toda desmoronar. é uma sensação gloriosa. e logo, bem logo mesmo, eu volto a adjetivar: suave.

- J.Castro


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indireto horror

horror

(indireto horror)

Nas pontas
esparramadas
dos seus cabelos
duplos
vejo telas brancas
transformando-se
em fadas
tontas.

A imensidão
que a palavra
não alcança
(nem você
me alcança)
está ali
só olhando
presa à moldura
dos tempos.

Você confia
como eu
confio?

Dramadrama
Darmadarma
Dramadrama
Darmadarma:
teatro budista
que eu pratico
da cama.

O carma
da cama.

O eu
imaterial
discute com
a identi-
dade pessoal
(toda cagada:
hifenizada:
infernizada)
criando choques
com o eu
normal.

Se não há
experiência direta
não há razão
para a indireta.

Não existe
um eu fixo.

Apenas
o eu lixo.

O eu
permanente
deu uma saída
mas ele disse
que já volta.

O meu ego
pode ser seu
se você tirar
o seu
da frente.

Num padrão
bem aparente
você pede perdão
e depois mente.

Eu fui
a melhor
explicação
de todas.

E você foi
o lapso
que me abriu
o olho
para o
inevitável
colapso.

Construí o tudo
sobre o nada.

E menos artigos.

Sem
ex-
periência
direta?

Então pare
(agora)
com as indiretas.

- edson farrusco


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um eixotorto aí

eixo

há um jeito aí de ir sem ir. você me olha com cara de quem já foi. eu finjo que fui, eu finjo que voltei, mas a verdade é que eu nem saí do lugar ainda. e aí? você tem cara de quem sabe mais do que eu. e que gosta de mostrar como foi e de como curte se enrolar nessa fantasmagoria do agora, nesse paradoxo de movimento, nessa ilusão bumerangue de ir sem ir. eu acho belo, mas não acredito em você, que ri aí, toda experiente. ainda aí. eu acho que você nem nunca saiu do lugar. na maioria das vezes são os parados que entendem mais dessas coisas de movimento. eu quero lhe dizer isso. mas você não para pra ouvir. assim fica difícil. você não precisa se mexer pra entender o movimento. basta olhar. e isso eu faço melhor parado. no fundo, lá no fundo, você sabe disso também. e é por isso que para aqui, comigo. é por isso que vem sem chegar e que volta, sem chegar, num automatismo de quem não precisa de olho pra saber como chegar ao destino e mesmo assim nunca chegar. isso eu sei fazer também. e eu nem precisei me mexer. você quer parar aqui? aí é grave. eu até deixo. mas tem que parar mesmo. eu deixo. e não me queixo. paraí. e me tira do eixo.

- J.Castro


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POEMA(NÃO)PLANEJADO

PICA

POEMA(NÃO)PLANEJADO

eu nunca planejei
um texto que fosse
na minha vida inteira.

apenas os ruins:
esses foram planejados.

catástrofes anunciadas.

e não sei bem o que dizer
sobre este aqui que começa a se formar
mas eu já sei que ele será um texto metido
por já ter começado com metalinguagens floridas
e manobrinhas maneiras de espelho.

não direi se ele foi planejado
ou não.
(faz parte do mistério
manter o mistério)
isso eu deixarei pra vocês
adivinharem.

e eu até já dei uma dica
pois disse que o poema planejado
é aquele que ruim fica.

(espaço reservado
para dizer que pintou uma vontade freudiana
de rimar o óbvio com o óbvio e dizer “pica”)

eu perco a amizade
mas digo: pica.

está na cara
que este poema
não foi planejado:
então ele será dos bons
(apesar das picas).

leia mais

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íntimo do caos

xaos

FAZENDO A ÍNTIMA COM O CAOS

Eu quero sentir o caos deslizando pelos dedos das minhas vãs babaquices. Eu quero sentir esse efeito de falsa autoestima bailando entre os pelinhos dos meu braços. Eu quero sentir o gosto do clichê na ponta da língua e experimentar o azedume de um amor fingido subindo pelo fígado em ondas sônicas do mais puro ranço hepático. Eu quero sentir as pontas do cabelo dela. Meio tarde para fazer sentido. Meio tarde para ser inteiro. Não me importo com essas amputações. Elas estão aí pois cumprem um papel importante na cadeia de falsidades, são atores importantes neste teatro do caos-da-boca-pra-fora (não se finjam entendidos em caos, por favor). Eu não lembro mais das pontas do cabelo dela. A memória, sempre nos protegendo. Fazendo sumir as lembranças ácidas. Boa memória. Seletiva. Funcionando de um jeito desfuncional. Não sei o que é o caos. Eu sou grego, mas nem tanto. Mas sei o que é a bagunça: está aí o meu lado brasileiro falando. Eu quero bagunça. Que é pra sentir o caos, logo de manhã, batendo na janela, montado num Dioniso coberto de sangue, perguntando se eu não estaria a fim de fazer uma bagunça por aí; eu apenas olharia no fundo dos olhos infinitos de Dioniso e ele me lançaria uma explosão solar em forma de desafio (e eu quase consigo ouvir sua voz quando ele faz isso, uma voz que é muito parecida com o assobio simpático de um golfinho esperto), mas eu não iria muito com a cara dessa alegria toda, dessa euforia de vinho com gás, e simplesmente não daria ouvidos. Não deem seus ouvidos a Dioniso. Ele é um canalha dos grandes. Eu recuso o convite e peço para ambos saírem da minha janela, pois estão tapando o meu sol de mentira. Eu não uso o caos em vão. Dioniso sabe disso, esse deus atentado, mesmo assim ele aparece, só para atazanar. É isso que dá se fingir de entendido em caos. Os dois (eles nunca se separam) começam com essas tentações. É que nem bêbado chato em festa: não pode dar bola. Então eu não dou atenção. Fecho a janela. Sinto o caos formando-se naqueles pequenos fosfenos que brilham com insistência ao fechar minhas pálpebras de treva pura e tento me contentar apenas com isso. Lembro das pontas do cabelo dela. Maldita. Esqueço. Viro de lado e sinto o caos querendo fazer conchinha. Muito gay. Desviro. Eu sinto o caos em todo lugar e continuarei a repetir isso até que ele bata na minha janela novamente, montando Dioniso, com seus desafios de criança chata. É melhor do que nada, acho. Eu sinto o caos chegando perto, querendo fazer a íntima. Eu não faço a íntima com o caos. Eu sou o caos. Mas só nas horas vagas. E nos feriados. Está na hora de fazer a íntima comigo mesmo.

- Vaner Micalopulos


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O CARA DA FRANJA

franja

O CARA DA FRANJA

vou escrever um poema pra você aí
que está aturando o cara da franja.

não sei se você merece
já que está aí
com o cara da franja.

o esforço não valerá
levando em consideração
que você está aí
com o tal cara da franja.

você é linda
mas deve ter algum problema
já que está aí
gastando sua vida
com o cara da franja.

então não perderei
este meu tempo irrecuperável
escrevendo poemas pra você
que fica aí suportando o cara da franja.

e eu já perdi mais tempo do que pretendia
só escrevendo que não escreverei
um poema pra você
que está aí se lambuzando
com o cara da franja.

então já era
você não me manja
e o pior de tudo
é que no final das contas
eu desperdicei parte da minha vida
escrevendo um poema aí
sobre o cara da franja.

- Vaner Micalopulos

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