POEMA(NÃO)PLANEJADO

PICA

POEMA(NÃO)PLANEJADO

eu nunca planejei
um texto que fosse
na minha vida inteira.

apenas os ruins:
esses foram planejados.

catástrofes anunciadas.

e não sei bem o que dizer
sobre este aqui que começa a se formar
mas eu já sei que ele será um texto metido
por já ter começado com metalinguagens floridas
e manobrinhas maneiras de espelho.

não direi se ele foi planejado
ou não.
(faz parte do mistério
manter o mistério)
isso eu deixarei pra vocês
adivinharem.

e eu até já dei uma dica
pois disse que o poema planejado
é aquele que ruim fica.

(espaço reservado
para dizer que pintou uma vontade freudiana
de rimar o óbvio com o óbvio e dizer “pica”)

eu perco a amizade
mas digo: pica.

está na cara
que este poema
não foi planejado:
então ele será dos bons
(apesar das picas).

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íntimo do caos

xaos

FAZENDO A ÍNTIMA COM O CAOS

Eu quero sentir o caos deslizando pelos dedos das minhas vãs babaquices. Eu quero sentir esse efeito de falsa autoestima bailando entre os pelinhos dos meu braços. Eu quero sentir o gosto do clichê na ponta da língua e experimentar o azedume de um amor fingido subindo pelo fígado em ondas sônicas do mais puro ranço hepático. Eu quero sentir as pontas do cabelo dela. Meio tarde para fazer sentido. Meio tarde para ser inteiro. Não me importo com essas amputações. Elas estão aí pois cumprem um papel importante na cadeia de falsidades, são atores importantes neste teatro do caos-da-boca-pra-fora (não se finjam entendidos em caos, por favor). Eu não lembro mais das pontas do cabelo dela. A memória, sempre nos protegendo. Fazendo sumir as lembranças ácidas. Boa memória. Seletiva. Funcionando de um jeito desfuncional. Não sei o que é o caos. Eu sou grego, mas nem tanto. Mas sei o que é a bagunça: está aí o meu lado brasileiro falando. Eu quero bagunça. Que é pra sentir o caos, logo de manhã, batendo na janela, montado num Dioniso coberto de sangue, perguntando se eu não estaria afim de fazer uma bagunça por aí; eu apenas olharia no fundo dos olhos infinitos de Dioniso e ele me lançaria uma explosão solar em forma de desafio (e eu quase consigo ouvir sua voz quando ele faz isso, uma voz que é muito parecida com o assobio simpático de um golfinho esperto), mas eu não iria muito com a cara dessa alegria toda, dessa euforia de vinho com gás, e simplesmente não daria ouvidos. Não deem seus ouvidos a Dioniso. Ele é um canalha dos grandes. Eu recuso o convite e peço para ambos saírem da minha janela, pois estão tapando o meu sol de mentira. Eu não uso o caos em vão. Dioniso sabe disso, esse deus atentado, mesmo assim ele aparece, só para atazanar. É isso que dá se fingir de entendido em caos. Os dois (eles nunca se separam) começam com essas tentações. É que nem bêbado chato em festa: não pode dar bola. Então eu não dou atenção. Fecho a janela. Sinto o caos formando-se naqueles pequenos fosfenos que brilham com insistência ao fechar minhas pálpebras de treva pura e tento me contentar apenas com isso. Lembro das pontas do cabelo dela. Maldita. Esqueço. Viro de lado e sinto o caos querendo fazer conchinha. Muito gay. Desviro. Eu sinto o caos em todo lugar e continuarei a repetir isso até que ele bata na minha janela novamente, montando Dioniso, com seus desafios de criança chata. É melhor do que nada, acho. Eu sinto o caos chegando perto, querendo fazer a íntima. Eu não faço a íntima com o caos. Eu sou o caos. Mas só nas horas vagas. E nos feriados. Está na hora de fazer a íntima comigo mesmo.

- Vaner Micalopulos


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O CARA DA FRANJA

franja

O CARA DA FRANJA

vou escrever um poema pra você aí
que está aturando o cara da franja.

não sei se você merece
já que está aí
com o cara da franja.

o esforço não valerá
levando em consideração
que você está aí
com o tal cara da franja.

você é linda
mas deve ter algum problema
já que está aí
gastando sua vida
com o cara da franja.

então não perderei
este meu tempo irrecuperável
escrevendo poemas pra você
que fica aí suportando o cara da franja.

e eu já perdi mais tempo do que pretendia
só escrevendo que não escreverei
um poema pra você
que está aí se lambuzando
com o cara da franja.

então já era
você não me manja
e o pior de tudo
é que no final das contas
eu desperdicei parte da minha vida
escrevendo um poema aí
sobre o cara da franja.

- Vaner Micalopulos

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enterro azedo

enterro

existem certos babacas que eu gostaria que me fizessem o favor de não irem ao meu enterro. isso é uma coisa que precisa ser dita agora, claro, antes que eu morra. uma coisa que precisa ser combinada. então eu deixo por escrito, sem citar nomes, deixo registrado este meu desejo, que eu gostaria de ver realizado. ou seja: que os babacas não compareçam ao meu enterro. deixem-me em paz, pelo menos na morte, que pode aparecer a qualquer momento. mas não agora, por favor. pois nessas coisas de morte eu gosto mesmo é de procrastinar. e viver é pra ontem. eu tô atrasado pra viver. é pra quando essa coisa de viver? é pra ontem, rapaz. então dá licença. porque eu não gosto de falar sobre isso. morte, vê se me erra.

- J.Castro


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lista de tipos

lista

moderninhos vintage. carecas de higienópolis exibindo coturnos comprados em chiques viagens para londres. roqueiros cavernosos. góticos e suas capas-saunas que nunca são lavadas. traficantes do mundo do pó de vidro (deu uma vontade de falar vrido). rocabíles calvos fazendo topetes de ar. os manos. as minas. pô. pá. o tatuador. o tatuado. e imbecis entre eles. outro imbecil, aqui, escrevendo e fazendo um exercício de minha culpa, minha máxima culpa. desculpa. perder este lápis seria a pior coisa que poderia me acontecer agora. entre os tipos tão cheios de estilo. o mano do boné no topo da cabeça e a mina bicuda que está com o mano do boné no topo da cabeça: ela está com medo. a gordinha quase lésbica que precisa ficar mais uma vez com um cara pra ver se esse lesbianismo, afinal, é tudo coisa da cabeça dela ou não. a novinha que se acha velhinha. o moleque normal que pelo menos uma vez na vida está se sentindo anormal: ele gosta. o headbanger que gastou inúmeras horas arrumando o cabelo pra balada. o casal que se conheceu recentemente, talvez pela internet, um em cada ponta da mesa, como se estivessem na frente de monitores imaginários: eu acho engraçado. a menina com pinta de estudante de ciências sociais e que está curiosa com o cara (eu) que escreve sem parar. as bichinhas da moda. as bichonas fora de moda. o cineasta com sonhos de tapetes vermelhos. a gatinha bocejante que só quer um pedaço de pizza e que precisará aguentar o namorado drogado que, por sua vez, acha que terá a melhor noite da sua vida. o mármore triste, personagem constante dessas noites estranhas. mesas molhadas: outra constante. banheiros imundos: eternamente constante. coisas. pessoas. odeio fazer lista. odeio mesmo. mas às vezes ela é a única coisa que consegue me tirar do mutismo e da preguiça. talvez eu ainda escreva alguma coisa boa hoje. ainda é tempo. é só ir embora. e parar com essa inútil lista de tipos. uma lista tipo assim: inútil.

— J.Castro


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DADA INDIRETA

dada

DADA INDIRETA

não sou dado
nunca fui
mas dou as cartas
e não as caras
pois dou de tudo
e mais um pouco:
eu dou bobeira
mas posso cobrar
por ela também:
dou bolo
dou cano
dou calote
dou capote
posso ser um canalha
mas não sou dado
(isso eu vou repetir
mais muitas vezes
nessa vida menos pouca)
às vezes não dou conta
desse recado mal dado
mas sigo dando no couro:
então eu ando
nada dado
mas às vezes só
eu acabo
dando de face
dando de frente
dando de letra
dando de ombros
dando dicas:
e tudo isso
sem ter que dar
porque a gente
é muito machodado:
pois o poeta dá a palavra
mas não se dá:
e se vocês me derem licença
eu já me vou embora
sem demora
pra dar livre curso
a esse versos
bestas
(tão bestas
que me dão no saco)
espero dar o recado
mas meio sem dar
porque eu acho
que a poesia
é assim:
ela dá pro gasto
ela dá patada
ela dá pulos
ela dá o que falar
ela dá furo
ela dá de graça
(mas cobra preços
na alma)
ela dá uma luz
às vezes
mas na maioria
das outras vezes
ela só dá uma sova mesmo
e no final dessa dada história
ela acaba que não nos dá
recado nenhum:
dou-me ao desfrute
de não ter sentido
porque eu posso
sem dar diretas
viver numa eterna
e dada indireta:
sem ser dado

- J.Castro


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TITÃS ENTEDIADOS

titas

TITÃS ENTEDIADOS

as almas puras
esperam pelos derretimentos
das ilusões
das falsas seguranças
das promessas vazias
por uma verdade
que só encolhe.

BAD THINGS WILL FOLLOW

cato mitologias
com as pontas dos meus dedos
(tão lógicos
tão pretensamente lógicos).

reinos mágicos
devorados pelas chamas débeis
dos dragões na melhor idade
e das putas zombeteiras
dessa boca do lixo
(sem dentes, claro)
pingando vapores sulfurosos.

trolls jogam maldades
nesta existência pacífica
que espera apenas
pela paz de um nada pra fazer
(faz a paz
que me satisfaz
faz).

lá se vão uns milhares de anos
desde que a doce inocência traiu-me.

a inocência me trolou.

aventuro-me pelas trilhas
duma mágica putaria
e baixarias disfarçadas
pelo pó das fadas
e curupiras fritantes de pés certos
a indicarem o caminho errado
(sempre).

talvez chova mais tarde
mas isso não muda nada.

elfos duendes hobbits
caiporas sátiros erínias
unicórnios druidas pererês

(todas essas mentiras
aparecem-me mais fácil
do que as pessoas de verdade
que deveriam aparecer
mas nunca aparecem).

num banquete de mentiras coloridas
coloco-me à disposição
de quem estiver disposto
a colocar-se com esses mantras
tão estragados.

cantorias esfumaçadas
de uma época
que está para chegar
escondendo a verdadeira natureza
dessa encruzilhada infecta.

eu não como
no chão.

quem faz isso
é exu.

linhagens inteiras
exterminadas com o sopro melado
de anjos teratogênicos
criados por deuses preguiçosos
e por uma farmacopeia
de tarjas pretas e efeitos colaterais
que fazem os titãs rirem
dessa preguiça divina.

um espetáculo
para titãs entediados.

desligo o sonho.

e vou dormir.

- Vaner Micalopulos


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adiando

preguica

NÃO FUI ONTEM

não fui ontem
mas hoje eu vou
prometo:
e só vou hoje
pra não ter que ir
amanhã.

porque amanhã
eu vou ter preguiça.

e eu procrastino tudo
até a preguiça
que eu preferiria ter hoje
do que amanhã.

a minha preguiça.

preguiça adiada
é preguiça perdida.

cancelo tudo hoje
só pra não ter
que cancelar amanhã.

adio-me agora
antes que me adiem
depois da hora.

adianto essa protelação
tão boba
tão inútil
tão anteontem
tão sem solução.

quando me falam
que não adianta
adiar as coisas
eu adianto um riso
e adio a argumentação:
tamanha ingenuidade
aquece-me o coração.

não vou hoje
só para não ter
que não ir
amanhã.

- Vaner Micalopulos


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