amar é…

pinon

trechos de I LOVE MY HUSBAND, de Nélida Piñon

“Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre maldormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado.
(…)
De repente, o espelho pareceu-me o símbolo de uma derrota que o homem trazia para casa e tornava-me bonita.
(…)
Ser mulher é perder-se no tempo, foi a regra de minha mãe. Quer dizer, quem mais vence o tempo que a condição feminina? O pai a aplaudia completando, o tempo não é o envelhecimento da mulher, mas sim o seu mistério jamais revelado ao mundo.
(…)
Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido.
(…)
Não posso reclamar. Todos os dias o marido contraria a versão do espelho. Olho-me ali e ele exige que eu me enxergue errado. Não sou em verdade as sombras, as rugas com que me vejo.
(…)
E também evita falar do meu corpo, que se alargou com os anos, já não visto os modelos de antes. (…) E quando a televisão exibe uns corpos em floração, mergulha a cara no jornal, no mundo só nós existimos.
(…)
Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes, (…). Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.”

I love my husband, de Nélida Piñon, In O Calor das Coisas. Rio, Record, 1998.





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