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bocejo bonito

seu bocejo
bonito
de boca
tímida
e ânimo
escondido:
eu prevejo
um tédio
prematuro
no forçado
sorriso:
na consulta
constante
ao relógio
apressado
eu vejo
um não jeito:
num trovejo
de esperteza
você percebe
minha falta
de molejo
e me tasca
um beijo
na bochecha:
fico besta
com tamanha
inocência:
eu desejo
a sua falta
de desejo

- J.Castro




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caralinda

não me olha com essa cara. você sabe que cara linda não funciona comigo. não adianta. você pode ser linda o quanto for que eu não vou arredar pé. eu tô certo nessa merda. não vem com perfeição pra cima de mim. pra cima de mim, filha? vai ser maravilhosa desse jeito lá na sua casa. não vem aqui, a essa hora da manhã, com esse seu brilho de deusa, achando que vai conseguir arrumar tudo. e não tem nada pra arrumar, então relaxa. foi só uma lambança de nada. não precisa vir flutuando pro meu lado, com esse cheiro de gente fresca, sai daqui, por que você não me deixa em paz no meu mausoléu? precisa vir até aqui, jogar essa plenitude na minha cara? coisa linda. acho que vou deixar você entrar. mas só um pouquinho.

- J.Castro

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2 poemas de Luna Garrido

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Direção funcional

Eu me direciono
para um lado só
e é assim
que eu funciono.

Prendo o olhar
num só pico-fixo
e sinto que todo mundo acha
que estou a me mostrar.

Vocês podem chamar isso de pose,
pois fico sempre olhando
para um mesmo lugar:
é esta a minha maneira
de ficar em todos os lugares
ao mesmo tempo.

É um acordo que eu tenho com a natureza.

Gosto de achar que essa bobagem é real,
mas sei que isso é apenas uma patarata que crio
para me achar melhor do que realmente sou.

Eu me direciono
para todos os lugares
e é assim
que eu (às vezes)
funciono.

- Michel Consolação

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miséria

seja bem vinda à miséria de ser quem eu sou. puxa uma cadeira. pega uma cerveja na geladeira. não sei se ela está gelada. eu estou. isso é ser um cara miserável. isso é ser um cara sozinho. eu sou assim: sozinho. você quer companhia? não aqui. qual o sentido em ser um cara sozinho se eu aceitasse companhias? mas eu deixo você entrar um pouco. só um pouco. veja as teias de aranha. a poeira condensada. os móveis que não mudam de lugar há anos. os livros espalhados. os quadros tortos. esta é a miséria de ser quem eu sou, minha filha. você quer realmente entrar aqui, achando assim que me fará um bem com sua companhia? melhor não. você vai querer fazer uma faxina e a bagunça é pra continuar do jeito que está. eu me encontro na bagunça. se não aparecesse ninguém pra meter o bedelho na minha zona, eu não me sentiria tão miserável. é por isso que fico sozinho: longe dos juízos do mundo mantenho-me íntegro com minha miserabilidade e, assim, um pouco menos miserável. já tomou sua cerveja mais ou menos gelada? ótimo. pode ir embora. tchau.

- J.Castro

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moléculas ou pessoas?

num belo dia eu acordei
(era uma vez)
e cismei que entendia mais
as moléculas
do que as pessoas.

amanhã um taxista me falará:
“é muito difícil entender as pessoas”
e eu responderei:
“é impossível entender as pessoas”
e eu nem vou cobrar
bandeira dois por isso.

é mais fácil entender o ínfimo
é mais fácil penetrar no infinito
(o infinito não é grande
ele é pequeno, acreditem vocês
só que de um jeito sem fim).

eu prefiro entender o interior das moléculas
e talvez seja essa a razão
para as pessoas se afastarem de mim:
puro ciúme molecular.

não é que eu prefira:
é que é desse jeito mesmo
só isso.

um ato de conformismo quântico
que é um “só isso”
em infinitas configurações.

parece muito
mas não é.

meu atestado
de inutilidade social
é este jeito quântico
de ir levando a vida.

pois tudo me interfere.

a verdade é que qualquer observador
muda radicalmente a minha trajetória
que já é mole sem que ninguém a observe
então imaginem como é
com gente olhando:
aí eu danço engraçado.

essas distrações moleculares
(vamos chamar assim)
já me custaram várias vidas:
morri várias vezes
e ainda tenho muito mais
pra morrer nesta vida.

mas não tenho mais
tanta vida pra gastar
com tolas (e lindas)
distrações moleculares.

(as moléculas choram).

era uma vez um poeta
que fazia as moléculas chorarem
mas não entendia as pessoas.

só isso.

- Vaner Micalopulos

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eu sou

Eu sou o momento de rodopio químico que nos faz acreditar em coisas. Eu sou o elegante micromovimento de ar que o bater das asas de um beija-flor produz para mantê-lo parado no espaço vazio e que não é vazio coisa nenhuma porque está repleto de ar (o beija-flor sabe disso). Eu sou aquele pequeno rodamoinho de sangue que colocará tudo a perder. Eu sou a primeira célula cancerígena que já sabe por que veio ao mundo. Eu sou um messias canino. Eu sou aquele nanossegundo de segurança antes do desabar definitivo com a decepção do amor quebrado. Eu sou a pontada que a memória dela provoca no fundo da minha consciência. Eu sou os vinte centavos. Eu sou um Bóson de Higgs que odeia o apelido de “partícula de deus” por ser uma afronta ao seu ateísmo subatômico. Eu sou isso. Eu sou aquilo. Eu sou o nada também, mas sem muita ênfase neste “ser nada”, porque o nada é mais forte do que o ser e é perigoso ficar muito tempo sendo nada porque você pode nunca mais voltar a ser. Eu sou o ser no exato instante em que ele deixa de ser nada. Eu sou os primeiros três meses de namoro. Eu sou o último segundo de namoro antes daquele derradeiro “eu não te amo mais”. Eu sou o filho da minha mãe. Eu sou aquela preguiça de manhã fria. Eu sou aqueles minutos a mais no banho quente (a destruição do planeta gritando horrores na forma dessas gotas tão maternais). Eu sou o mal que meus amigos desejam para eles mesmos. Eu sou o bem que alguns deles fingiram a vida inteira que me queriam. Eu sou um breve sopro hipnagógico que me faz ter medo, por algumas noites, de dormir. Eu sou a minha solidão cristalizada e já muito bem resolvida comigo mesmo. Eu sou tantas coisas que não sei. Eu sou um não sei também, claro. Mas é que os clichês a gente vai deixando para o final. Como se eles já não estivessem por aí desde o começo de tudo. Eu sou a sensação de ter escrito besteiras vazias para chegar à conclusão de quem sou e não chegar nem perto de nenhuma conclusão sobre isso. Eu sou vazio. Se eu soubesse disso antes de escrever, não teria escrito nada. Eu sou tarde demais.


- Vaner Micalopulos

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elogio da procrastinação

não fui ontem
mas hoje eu vou
prometo:
e só vou hoje
pra não ter que ir
amanhã.

porque amanhã
eu vou ter preguiça.

e eu procrastino tudo
até a preguiça
que eu preferiria ter hoje
do que amanhã.

a minha preguiça.

preguiça adiada
é preguiça perdida.

cancelo tudo hoje
só pra não ter
que cancelar amanhã.

adio-me agora
antes que me adiem
depois da hora.

adianto essa protelação
tão boba
tão inútil
tão anteontem
tão sem solução.

quando me falam
que não adianta
adiar as coisas
eu adianto um riso
e adio a argumentação:
tamanha ingenuidade
aquece-me o coração.

não vou hoje
só para não ter
que não ir
amanhã.

- Vaner Micalopulos

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