MENOS MENTE

menos

fecho-me na zona. nota mental: uma zona de puro desconforto. eu tento a graça. mas, às vezes, só a desgraça faz tudo andar. fecho-me na zona. diminuo os sensores. desligo a visão, mas os olhos permanecem abertos. não é fácil. exige treino. fecho-me num ponto. o ponto é vazio. ele não existe por si. desligo a visão, mas ligo o vazio. realidade de açúcar. penso nisso. é ridículo. vapores. tudo é feito de vapor. vapor de açúcar. nota mental: tente não espalhar a atenção, olhe o vazio. morena gostosa na área. olhe o vazio. morena. vazio. saco, assim é sacanagem. recomeçar. olhe para um ponto fixo. entre nele. com força. sem viadagens. afunde-se no agora. mergulhe no aqui. dobre o espaço. encoste no tempo. não desvie a atenção. não pense em não desviar a atenção. concentre-se. menos mente. menos mente. vagabundo zen. um segundo, dois segundos. não conte. feche-se. na zona. seja a zona. mas saia dela também, entrando o máximo possível nela. é estranho. mas é assim. eu sou a zona. e acho que vocês já sabiam disso.

— J.Castro





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PARECE BEM

bem

(é ela, meu deus, por que essas merdas só acontecem comigo? eu tinha certeza de que ela não estaria aqui. mas ok, ela tá aí, e tá bela, filhadaputa, ela poderia estar feia só pra eu fazer algum comentário sacana, não, eu não faria isso, eu só queria ter coragem pra fazer, mas eu não faria. eu acho essa filhadaputa bela de qualquer jeito. falo alguma coisa? sorrio, pergunto se está tudo bem, finjo que eu mesmo estou bem?)
- oi.
- oi.
(oi? que oi o quê? eu não tenho que ficar dando oi pra ela, mas agora já foi. vou ficar só no oi mesmo, porque eu não gasto nem mais um segundo de linguagem com essa sem vergonha. ok, eu tô gastando linguagem pensando furiosamente nisso, mas pelo menos eu mantenho as aparências e não falo nada.)
- você tá bem?
(se eu tô bem? vejamos, eu poderia começar com a verdade e dizer que não, claro, mas quem responde não a uma pergunta dessas? as pessoas achariam que é manha e ela vai achar que é manha mesmo, que eu tô querendo começar uma discussão. mas eu também não falarei que sim, pois eu não tô bem, e é claro que eu não tô bem por causa dela, e é claro também que eu nem quero que isso fique claro, pois tá na cara que eu não tô bem, minha filha…)
- tô, e você?
- também, também. você parece bem mesmo.
(ok, eu não sei mais como interpretar isso porque eu nem lembro mais como interpretar qualquer coisa que sai da sua boca. eu pareço bem o quê? ou eu pareço que tô bem? é isso? frase mal feita do cacete. eu posso simplesmente deixar essa conversa no meio e fingir um desmaio, eu dou um rodopio e caio no chão, o que não seria tão ruim assim, esse monte de teatro, mas a camisa tá limpa, então é melhor não, catso, que merdinha eu sou, preocupado com a camisa, foi por isso que ela te largou, foi por isso que você me largou, né?)
- obrigado, você parece bem também..
(obrigado, claro, obrigado por ter me destruído, obrigado pela ressonância enjoativa que você provocou na minha vida, obrigado por estar sempre presente nas ausências fundamentais de tudo, obrigado mesmo, eu acho até que deveria agradecer por você ter me destroçado, ver a tudo como uma oportunidade para praticar o meu budismo, você deveria ser uma daquelas coisas que nos abrem os olhos, mas eu tô aqui de olho aberto e não enxergo nada mesmo assim: miserável clichê. e você tá bem mesmo, não como eu, que não estou bem, mas pareço estar, só pareço que estou bem, pois eu pareço bem que estou parecendo bem, meu bem.)
- que bom que estamos bem, então.
- bem, eu não diria exatamente bem…
- você sabe… ultimamente eu ando pensando muito em você.
(rodopio. desmaio. foda-se a camisa, meu bem.)

J.Castro

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NÃO ERA PRA SER

era

não era pra ser. está aí um paradoxo daqueles. e que a gente joga no meio de qualquer discussão. é um argumento que destrói. pois não significa nada. não era pra ser, então nunca foi, nunca será e não passou de uma possibilidade. como não foi, agora não é nada, mas é um nada que sempre foi um não era pra ser. e já que não era pra ser, ele acha que pode ficar aí zanzando na forma desse nunca realizado era pra ser. era. não era. repito os mesmos erros num frenesi de catuaba selvagem. e fico perdido nos infinitos espaços entre o era e o não era. não sou o primeiro a dizer isto: a visão do tudo me assombra. então eu prefiro deixar pra lá e lembrar, docemente, que simplesmente não era pra ser.

- J.Castro

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PULE OS IDIOTAS

bar

por que essa distância entre nós? este espaço cheio de idiotas que nos separa, o que é isso? por que as deusas mais perfeitas sempre nos aparecem nos lugares medíocres? e lotados? eu sinto que pode ser você. e eu tenho tanta quase certeza disso que eu vou me concentrar pra que você se materialize aqui do meu lado. não que eu seja grandes coisas. não que eu tenha poderes. não sou. não tenho. mas você tem. e é por isso que você vai fazer isso por mim. vem logo. pule os idiotas. tô te esperando no bar.

- J.Castro

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