exageradíssimo





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eu & você

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caralinda

não me olha com essa cara. você sabe que cara linda não funciona comigo. não adianta. você pode ser linda o quanto for que eu não vou arredar pé. eu tô certo nessa merda. não vem com perfeição pra cima de mim. pra cima de mim, filha? vai ser maravilhosa desse jeito lá na sua casa. não vem aqui, a essa hora da manhã, com esse seu brilho de deusa, achando que vai conseguir arrumar tudo. e não tem nada pra arrumar, então relaxa. foi só uma lambança de nada. não precisa vir flutuando pro meu lado, com esse cheiro de gente fresca, sai daqui, por que você não me deixa em paz no meu mausoléu? precisa vir até aqui, jogar essa plenitude na minha cara? coisa linda. acho que vou deixar você entrar. mas só um pouquinho.

- J.Castro

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miséria

seja bem vinda à miséria de ser quem eu sou. puxa uma cadeira. pega uma cerveja na geladeira. não sei se ela está gelada. eu estou. isso é ser um cara miserável. isso é ser um cara sozinho. eu sou assim: sozinho. você quer companhia? não aqui. qual o sentido em ser um cara sozinho se eu aceitasse companhias? mas eu deixo você entrar um pouco. só um pouco. veja as teias de aranha. a poeira condensada. os móveis que não mudam de lugar há anos. os livros espalhados. os quadros tortos. esta é a miséria de ser quem eu sou, minha filha. você quer realmente entrar aqui, achando assim que me fará um bem com sua companhia? melhor não. você vai querer fazer uma faxina e a bagunça é pra continuar do jeito que está. eu me encontro na bagunça. se não aparecesse ninguém pra meter o bedelho na minha zona, eu não me sentiria tão miserável. é por isso que fico sozinho: longe dos juízos do mundo mantenho-me íntegro com minha miserabilidade e, assim, um pouco menos miserável. já tomou sua cerveja mais ou menos gelada? ótimo. pode ir embora. tchau.

- J.Castro


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eu sou

Eu sou o momento de rodopio químico que nos faz acreditar em coisas. Eu sou o elegante micromovimento de ar que o bater das asas de um beija-flor produz para mantê-lo parado no espaço vazio e que não é vazio coisa nenhuma porque está repleto de ar (o beija-flor sabe disso). Eu sou aquele pequeno rodamoinho de sangue que colocará tudo a perder. Eu sou a primeira célula cancerígena que já sabe por que veio ao mundo. Eu sou um messias canino. Eu sou aquele nanossegundo de segurança antes do desabar definitivo com a decepção do amor quebrado. Eu sou a pontada que a memória dela provoca no fundo da minha consciência. Eu sou os vinte centavos. Eu sou um Bóson de Higgs que odeia o apelido de “partícula de deus” por ser uma afronta ao seu ateísmo subatômico. Eu sou isso. Eu sou aquilo. Eu sou o nada também, mas sem muita ênfase neste “ser nada”, porque o nada é mais forte do que o ser e é perigoso ficar muito tempo sendo nada porque você pode nunca mais voltar a ser. Eu sou o ser no exato instante em que ele deixa de ser nada. Eu sou os primeiros três meses de namoro. Eu sou o último segundo de namoro antes daquele derradeiro “eu não te amo mais”. Eu sou o filho da minha mãe. Eu sou aquela preguiça de manhã fria. Eu sou aqueles minutos a mais no banho quente (a destruição do planeta gritando horrores na forma dessas gotas tão maternais). Eu sou o mal que meus amigos desejam para eles mesmos. Eu sou o bem que alguns deles fingiram a vida inteira que me queriam. Eu sou um breve sopro hipnagógico que me faz ter medo, por algumas noites, de dormir. Eu sou a minha solidão cristalizada e já muito bem resolvida comigo mesmo. Eu sou tantas coisas que não sei. Eu sou um não sei também, claro. Mas é que os clichês a gente vai deixando para o final. Como se eles já não estivessem por aí desde o começo de tudo. Eu sou a sensação de ter escrito besteiras vazias para chegar à conclusão de quem sou e não chegar nem perto de nenhuma conclusão sobre isso. Eu sou vazio. Se eu soubesse disso antes de escrever, não teria escrito nada. Eu sou tarde demais.


- Vaner Micalopulos


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fingindo escrever

não acredito. é ela. com ele. claro, isso tinha que acontecer. mais cedo. mais tarde. padaria de merda. ela está em todos os cantos dessa padaria. a nossa padaria. e agora ela vem com ele. que é bem o tipo dela e que ela me jurava que não era. que não é. coisinhas tão pequenas. ela não me viu. está com aquelas amigas, tão chatas. elas entrando, eu saindo. perfeito. é só passar na boa que ninguém me nota. e que cara ridículo. bem o tipinho dela mesmo. fôdasse. tô pagando. vai logo com o troco. vai rápido, senhorita do caixa. troco. obrigado. vou-me embora. ela me viu. saco. as amigas me viram. saco. que ridículo. o que eu faço? finjo que não é comigo (e não é mesmo, oras). saio da padaria. cabeça baixa. sinto que é preciso passar alguma coisa pela minha cabeça. nada. sinto que preciso ter um grande pensamento. nada. abro o caderno, não tenho absolutamente nada pra escrever, mas escrevo: ESCREVENDO ALGUMA COISA PARA PARECER QUE ESTOU ESCREVENDO ALGUMA COISA. fecho o caderno. agora sim. que cara ridículo.

— J.Castro


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bardos

morte. não morte. eu era um cara sem fé: aí eu vi a ponta do meu pé: entrando no crematório. depois daquilo, eu acabei aqui, torcendo por eternidades. eu visto a camisa. sou um buda anacoreta. trilho o caminho do pra sempre. não acredito em renascimentos, pois eu tenho certeza que renascimentos existem. e lembro da minha última vida: eu era um enorme babaca. quero fazer tudo direito desta vez. juro que quero. a morte está aí. fungando no cangote. deve-se estar preparado. para garantir boas direções na confusão kármica dos estágios intermediários do vida-morte-vida. os tibetanos chamam esses estágios de bardo. acho essa palavra do caralho. com o perdão da profanação. não misturemos budismos com caralhos. o dharma pede calma. não sei o que é sentir calma há muito tempo. budista de shopping que sou. transformar preguiça em músculos. não serei um babaca nesta vida. apesar de, talvez, já ser meio tarde pra isso. nunca é tarde. só a morte interrompe o processo. é preciso se equilibrar entre as interrupções. necessárias. inadiáveis. manter os olhos abertos. e morrer. mais uma vez.

- J.Castro


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você

descobrindo novas maneiras de descobrir você. e eu repito muito a palavra você, mas é que sempre existe um você no meio da zoeira, então eu tenho que ser repetitivo mesmo. às vezes é você. às vezes é outro você. na maioria das vezes tem sido você, mesmo que você não acredite, mas é verdade: é você. então deixa: eu descobrir: você.

- J.Castro


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