cassetetes vs. skates

Os acontecimentos de hoje na Avenida Paulista me lembraram uma cena de um bom documentário. Primeiro, os acontecimentos de hoje:

Pois bem, na tal cena do documentário, um Arcebispo Ortodoxo ucraniano, diante dos recentes levantes que aconteciam no seu país, dizia: “Todos perceberam que se hoje estudantes são espancados, amanhã qualquer um pode ser”.

Breve retrospectiva para sabermos sobre o que estamos falando: em dezembro de 2013 um grupo pacífico de estudantes ucranianos foram às ruas, injuriados com o governo do presidente Viktor Yanukovych, que se recusou a assinar um acordo de associação com a União Europeia. Os estudantes foram tratados, digamos assim, com certa truculência pelas forças do governo. Em resposta às agressões policiais, o povo ucraniano levantou-se num movimento de resistência que duraria noventa e três dias. As balas de borracha, usadas nos primeiros conflitos, foram substituídas aos poucos por munição letal. Civis eram alvejados por atiradores de elite em plena luz do dia. Depois de centenas de mortos e desaparecidos, o presidente Yanukovych “abandonou o cargo” e recebeu asilo político na Rússia. Assim, começava a Crise da Crimeia. A contagem de mortos resultante dessa guerra já passa de seis mil.

A imagem aqui compartilhada foi extraída do ótimo documentário WINTER ON FIRE, que nos oferece um ângulo assustador daqueles três meses de embates furiosos: o de dentro dele. Vale a pena dar uma olhada no filme.

E sobre o que aconteceu hoje na Avenida Paulista, acho que não há muito o que dizer. As imagens já dizem tudo. Afinal, que poder maníaco é este que autoriza policiais a agredirem estudantes secundaristas por estarem apenas inconformados com o fechamento de escolas? Cassetetes contra skates. Luta justa é isso aí.





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assentamento


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também fomos crianças

A gente sabe que o Dia das Crianças está chegando por causa de duas coisas: o calendário (claro) e a epidemia de fotos infantis nos perfis das redes sociais da vida. Se o Leminski estivesse vivo, talvez entrasse na onda coletiva e nos brindaria com uma dessas:

 

Ou não. De qualquer maneira, aproveitando a chegada desse período de fofices e nostalgias um tanto exageradas, lembramos que os homens e as mulheres das letras também já foram crianças, por mais que duvidemos disso. E, por isso, aí vai uma coletânea de fotos de alguns monstros e monstras da literatura da época em que eram apenas monstrinhos e monstrinhas.

1. Agatha Christie

 

2. Jorge Luis Borges

 

3. Caio Fernando Abreu

caio

4. Albert Camus

5. Truman Capote

6. Chico Buarque

 

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a soma

rostinho arrebitado. nariz idem. arrumadinha pra cima. mas não naquele sentido meio pejorativo do arrumadinha. não tem nada de pejorativo em você. muito menos de meio. você é toda inteira. e é claro que você acha que eu falo isso pra todas. eu não falo. eu escrevo. e você está agora, aqui, virando letra. você e esse lábio superior apontado pra cima. esse dente aparecendo. aposto que você odeia esse detalhe. deve achar que é defeito. mas você não sabe de nada. pois a soma dos seus defeitos dá um efeito daqueles. e você nem se dá conta disso.

- J.Castro


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patoprato

na praça dos patos. o calor é tanto que só os patos se aventuram. no calor dos patos. é tanto calor que eu não sei. e você fica aí: colocando as coisas em pratos limpos. as coisas que falamos. as coisas que rimamos. elas estão aí, flutuando no éter. não servem pra nada. ou não servem mais. não adianta colocar as rimas em pratos limpos. a rima já era. pelo menos até a próxima moda. os patos enfiam suas cabeças por entre as asas que daqui me parecem tão molhadas. os patos. nos seus pratos. imundos.

- J.Castro


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repete aí

você me diz o quão repetitivo eu sou. acho graça. como seria possível alguma coisa no universo sem a repetição? você acha que a vida só existe por quê? repetição. o resto é fluido. água, suor, lágrima, sangue: os sumos do corpo. e os erros que tanto insistimos em repetir e que ainda repetiremos infinitas vezes? os movimentos dos seus olhos loucos, tantas vezes repetidos à frente do espelho: como seriam eles também possíveis sem essa repetição mecânica? é na repetição mecânica que se chega à perfeição orgânica. isso eu aprendi com você. e as músicas que repetimos estupidamente? e os poemas repetidos? minha poesia precisa desse modo de repetição para se instalar nos mármores únicos de suas espáduas sem fim. e como parar de repetir esse deslizamento do eu nesses vales fundos do seu colo único? você repete: eu não lhe repetirei. eu sei que é mentira. eu repito o meu escárnio. você vai embora, toda brava. amanhã a gente se repete.

- J.Castro


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descurto

o facebook não precisa do botão para descurtir. ele já existe. é o botão para curtir. com suas infinitas utilidades. pois todo mundo já recebeu uma curtida indevida na vida. a curtida com cheiro e jeito de descurtida. a curtida da ex-namorada. a curtida do amante sacana. a curtida do invejoso de plantão. a curtida inimiga. a curtida maliciosa. a curtida com múltiplos significados. há quase uma linguagem completa nisso. não curto. tenho mais pra fazer com a minha vida do que ficar curtindo coisa que não curto. desculpe a lição de moral. não curtiu? então curte aí.

- J.Castro


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casos de família

família lá. família cá. existe por aí uma supervalorização da ideia de família. nem toda família é boa. essas pessoas que defendem a ultracaretização do conceito de família também tiveram suas famílias. foram elas boas ou ruins? sei lá. não farei o mesmo que os ultracaretas. não meterei o dedo na família alheia. não me importo se elas, as famílias, são boas ou ruins. ou eficientes. eu gosto de pensar numa família como algo que deveria apenas ser caracterizado como eficiente ou não. a família do pedófilo do bairro? nada eficiente. também não defenderei aqui a beleza da eficiência familiar. pois imaginem se a família do Kafka tivesse sido totalmente eficiente? não teríamos aqueles livrinhos, tão apetitosos, tão bonitos na prateleira de casa. a questão não é simples. e não serão os vlogueiros polissilábicos ou os pastores rábicos que resolverão a indecisão social. seremos nós. com as nossas famílias. dentro de nossas casas. sem deixarmos que nos digam como deveriam ser as nossas famílias. a sua família. cada um na sua. pois de família, já basta a minha.

- J.Castro


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