CRESCER É ESQUECER

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CRESCER É ESQUECER

I)

É claro que eu não sou
mais criança.

Pois já é tarde, o sol está alto
e eu sou criança só durante a manhã.

Logo quando acordo sou meio tonta,
mas agora eu já sei de tudo
e as coisas parecem-me todas
muito parecidas com o Todo.

E olha que ainda
é tarde.

Imagine só como será
à noite.

II)

Eu acho que a gente sabe que cresce
quando percebe que está começando a parar.

E a chatice em crescer
é que a gente fica tão chato,
mas tão chato,
que toda hora pede
pra uma criança parar.

“Para criança!”
“Você não cansa, não?”
“Sossega o pito!”

Essas todas são frases que eu acho
muito chatas.

Pois eu estou vendo que tudo se move,
não estou?

Qual verdade é mais evidente
do que esse movimento estelar
que nos balança por dentro,
mas nos congela de medo por fora?

Quando um adulto me pede pra parar
eu falo pra ele se mexer.

Porque eu sou criança
e sei mais do que você.

III)

Eu tenho jeito pra inventar coisas.

Pode não parecer,
mas eu tenho ideias.

O problema é que eu ainda
estou nessa busca
pra arranjar um meio
de transformar começo em fim,
transformar ideia em realidade.

Por exemplo:
eu quero inventar
uma máquina que nos coloque
dentro das máquinas;
aí a gente saberia direitinho
como elas funcionam.

Porque eu entro na geladeira
em dia de calor,
faço da máquina de lavar
um parquinho giratório
e olho pro aspirador de pó,
onde eu não entrei ainda,
e penso num jeito de ele me aspirar
pra eu ficar sabendo como é que ele faz
pra manter essa fome eterna.

E eu quero logo passar das brincadeiras
e começar com excursões científicas mais sérias.

Descobrir como a geladeira gela,
como a máquina de lavar lava
e como o aspirador aspira.

Sou aspirante a inventor.

É por isso que eu desinvento
primeiro.

Só pra inventar tudo de novo depois.

IV)

Quem inventou a seriedade
só podia estar de brincadeira.

Alguém teve que parar de brincar
pra começar a ser sério.

Quem foi essa criança,
que primeiro parou de brincar,
pra começar com seriedades?

Eu não sei. Pergunta difícil, eu sei.

Então eu rodo.

Porque rodar é o antídoto universal
pra curar ideia besta
e parar com conversa
que não vai a lugar nenhum.

Isso eu aprendi com as estrelas.

Que odeiam seriedades.

V)

Eu não sou fofoqueira.

Essas coisas de segredo
deveriam valer apenas para as mentiras.

Porque tudo que me falam
é verdade.

Não é?

E eu acho que a verdade
tem mesmo que ser dita.

Isso aí de esconder verdades
deve ser algo que a gente aprende
quando cresce.

Quando a gente cresce
a gente desaprende
a ser gente.

Porque ser adulto é desaprender.

E isso não é segredo pra ninguém.

VI)

Brincar é coisa séria.

Quando a gente cresce,
esquece disso.

Porque crescer é esquecer.

Então eu lembro, toda hora,
a todo mundo, que não existe essa coisa
como uma “hora de brincar”.

Brincar é pra toda hora.

Taí outra coisa
que a gente desaprende
quando vira adulto.

- Michel Consolação
(São Paulo, março de 2013)





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