J.CASTRO: CURTO

curtocurto

você quer uma resposta pra essa sua pergunta vitimizada? você quer saber se a dor passará um dia? como se eu não estivesse sentindo dor nenhuma? pois bem, eu também sinto dor, pode não parecer, mas sinto. e você quer saber se essa sua dor um dia passará? vai se foder que ela passa.
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eu queria que você se encostasse em mim. mas eu tô aqui, pensando em maneiras de como dizer isso: e só. eu olho pra você e digo: suave. você ri, sem falar nada, pois sabe que é suave mesmo. suave? você deve me achar um idiota. aspeio um comentário qualquer. você realmente deve me achar um idiota. claro.
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encavalo os sonhos. fico sem saber. o quê? saber, apenas. fico sem saber como saber. por isso: coloco um sonho sobre o outro na esperança de que assim eu talvez esqueça que não há saber nenhum debaixo de todos esses meus sonhos empilhados. ufa. eu sonho que não sei. e sei que, até hoje, eu só sonhei.
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sente isso. sabe o que é? choque. é sério: pura eletricidade. sente de novo. vou te tocar. sentiu? não é estática. sou você. é eu. sente. eu não sei se são esses ferros no seu corpo. ou estas minhas obturações prateadas que entregam a idade. ou os dois. não sei o que é. mas você tá me dando um choque. parece legal, assim no verbo, mas a longo prazo dá uma certa irritada. olha só. presta atenção. de novo. sentiu? choque chato.
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percebendo-me irrealizável já estou realizando alguma coisa. pois é algo perceber-se o contrário de algo. não dá pra não ser nada se você já é alguma coisa. a gente não vira nada, assim, do nada. se você já é, já era. está tudo no âmbito da linguagem, que nunca é o suficiente (palavra do dia: âmbito). a linguagem viva, que nos mata. devagar e sempre. uma lenta destruição. belo isso. realizo-me sendo este algo com pretensões de ser um nada. assim fica difícil. nada. tudo. não fico. nem nada. simplesmente irrealizável.
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não me peça meio termo. eu não sou tipo de meios termos. eu fico no meio de muitas coisas. e, às vezes, até mesmo de alguns termos. mas a verdade é que eu não sei bem ao certo o que é isso. não se ache tanto assim por ser meio termo. ser meio do caminho. ser meio do cu. isso não significa nada pra mim. você fica aí se vangloriando por estar nas trilhas dos meios. mas pra mim caminho do meio é apenas a metade do caminho. então não me venha com essa de meio termo. e nada de namastê pra você.
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adoeço. e meio que mereço. faço parte dessa doença que é você. você é doente. isso é evidente. e eu faço parte dessa doença aí que você é. então a gente vive é nesse vice-versa doente. meio doença e meio cura. acompanhando a dança louca de nossas imunidades estouradas. eu fico doente. você fica doente. e depois a gente se cura. amor é doença. me adoenta. me aguenta. depois a gente se cura.
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existem jeitos que nos deixam sem jeito. um abrir de peito que é puro efeito. e uns defeitos no meio. que é pra ficar no jeito. umas aberrações que eu aqui vou chamar de óticas só pra parecer que eu sei do que estou falando. efeito especial. odeio. mas eu sei do que estou falando.
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não. sério. por favor. não faça isso. não entre em contato comigo. não agora. você me viu ali, na janelinha do não sei o quê. tudo bem. mas não me veja. não me chama. não faça isso. que tipo de maldade é essa? você é suja. você aparece. mas deveria evaporar. puf. vapor imundo. não. por favor. não me venha. eu me mudo. não se vá. eu me mudo.
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que me quebre. que me parta, mas sem partir. que me destrua, por aqui. sem ir. pois dá pra partir por aqui. sem ter que sair por aí. preguiça eterna. preguiça repartida. em dois, em três. às vezes eu sou vocês. mas na maioria das vezes eu sou eu. e só. não dá. eu queria uma associação que estivesse perto do decente. nada com tantos sons assoprados. assobiados. que eu não sei. como se escreve. eu me escrevo. e me assopro. sem saber. como se escreve.

- J.Castro





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