DIFÍCIL

dificil

Penso nela. E quando penso, não é um ato de puro pensar. Longe disso. Pois sinto todas essas ondas, todas essas transformações operando sobre o meu ser. O meu ser. Que pensa ser. É que eu crio a tudo e crio até este eu que pensa estar pensando nela. Não é um puro pensar, repito. A matéria vem junto. As moléculas do meu corpo, todas elas, deslocam-se em ondas de dor. E não é que ela tenha me causado dor. Não é isso. É que o deslocamento da mente pelos ridículos átomos do meu corpo provoca uma certa dor e isso faz parte do processo mesmo. Ela nunca me causou dor nenhuma. Eu sou o causador de tudo por aqui. Até da dor que eu queria muito que tivesse sido ela a causadora. Mas não é assim. Minhas moléculas doem, mas é que a movimentação deste pensar provoca isso. Cada ínfimo pedaço de mim lateja com fúria sempre que isso acontece. A culpa é minha. É um pensar físico. Só pode ser. É um estampido vazio bem no meio do peito, que sobe devagarinho pela garganta, passando por baixo da língua até se alojar em algum canto obscuro atrás da orelha. Pulga vertiginosa, que fica lá, atazanando-me. Até que outro desconforto troque de lugar com a danada. E sempre haverá outra complicação para ocupar esses lugares tão movimentados atrás da minha orelha. São espaços amplos e cheios de preocupações. Eu não posso mais com esses espaços cheios. É muito difícil ser eu. Pois sou um cara cheio de grilos e pulgas, que são as representações animais dessas minhas preocupações. Eu queria que fossem uns animais mais legais. Mas foi isso que o universo me reservou. E acho que foi por isso que ela se foi. É muito difícil viver com este eu. Eu até entendo. É mais fácil viver comigo assim, de longe. Então só me sobra este pensar doloroso. Minhas moléculas agradecem. Mas eu não. Difícil ser. Eu.

- Vaner Micalopulos





postado em por admin em prosa deixe um comentário

adicione comentário

www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top