dores

dor

Um tiro na perna. Um chute no saco. Um extirpar ligeiro do lóbulo da orelha. Um deslocamento maneiro da rótula. Um pedaço do cérebro a sair pelo nariz, como naquelas múmias egípcias, prontas para a eternidade. Uma bomba que explode no peito de algum fanático muçulmano, preparado para as setenta e duas virgens que ele nunca verá. Um coquetel molotov estourando no rosto de um policial pai de família. Uma bala de borracha no olho. Uma flecha entrando suavemente no peito de uma ave em extinção. Uma armadilha de urso enferrujada cravando fundo no tórax de um coelho desavisado. Um torvelinho de sangue entrando errado na aorta. Um último brilho de olho da criança que se vai. Uma música que abre dolorosamente todos os poros da pele (e que mesmo assim a gente insiste em ouvi-la sem parar). Uma declaração de amor falsa. Um gemido de fome da criança africana que não passará de amanhã (e o choro do voluntário suíço que não conseguirá fazer nada para evitar isso). Uma queimadura química no rosto belo (anjos derretidos, anjos derretidos, anjos derretidos). Uma primeira vez a perceber os sintomas daquela demência irreversível. Uma pena de morte aplicada antes que se viva. Umas dores que me explodem sem fim no peito sem fundo. Um peito sem fundo. Um peito. Um fundo. Uma dor. Todas em uma. Apenas uma. É o bastante.

- Vaner Micalopulos





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