eu sou

Eu sou o momento de rodopio químico que nos faz acreditar em coisas. Eu sou o elegante micromovimento de ar que o bater das asas de um beija-flor produz para mantê-lo parado no espaço vazio e que não é vazio coisa nenhuma porque está repleto de ar (o beija-flor sabe disso). Eu sou aquele pequeno rodamoinho de sangue que colocará tudo a perder. Eu sou a primeira célula cancerígena que já sabe por que veio ao mundo. Eu sou um messias canino. Eu sou aquele nanossegundo de segurança antes do desabar definitivo com a decepção do amor quebrado. Eu sou a pontada que a memória dela provoca no fundo da minha consciência. Eu sou os vinte centavos. Eu sou um Bóson de Higgs que odeia o apelido de “partícula de deus” por ser uma afronta ao seu ateísmo subatômico. Eu sou isso. Eu sou aquilo. Eu sou o nada também, mas sem muita ênfase neste “ser nada”, porque o nada é mais forte do que o ser e é perigoso ficar muito tempo sendo nada porque você pode nunca mais voltar a ser. Eu sou o ser no exato instante em que ele deixa de ser nada. Eu sou os primeiros três meses de namoro. Eu sou o último segundo de namoro antes daquele derradeiro “eu não te amo mais”. Eu sou o filho da minha mãe. Eu sou aquela preguiça de manhã fria. Eu sou aqueles minutos a mais no banho quente (a destruição do planeta gritando horrores na forma dessas gotas tão maternais). Eu sou o mal que meus amigos desejam para eles mesmos. Eu sou o bem que alguns deles fingiram a vida inteira que me queriam. Eu sou um breve sopro hipnagógico que me faz ter medo, por algumas noites, de dormir. Eu sou a minha solidão cristalizada e já muito bem resolvida comigo mesmo. Eu sou tantas coisas que não sei. Eu sou um não sei também, claro. Mas é que os clichês a gente vai deixando para o final. Como se eles já não estivessem por aí desde o começo de tudo. Eu sou a sensação de ter escrito besteiras vazias para chegar à conclusão de quem sou e não chegar nem perto de nenhuma conclusão sobre isso. Eu sou vazio. Se eu soubesse disso antes de escrever, não teria escrito nada. Eu sou tarde demais.


- Vaner Micalopulos





postado em por admin em prosa Comentários desativados
www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top