UM FLUXO MEIO COMPRIDO

meentendo


UM FLUXO QUE EU JÁ SEI QUE NINGUÉM LERÁ E QUE, POR ISSO, VAI TERMODINAMICAMENTE ACABAR NUM BURACO.

Pois é sempre na forma de uma continuação de achares que eu tento manter o fluxo de tudo, como se fosse necessária a existência deste eu aqui para a continuação do que quer que seja, o que dizer então de um fluxo que todo mundo concorda que é um fluxo e, por definição, vai continuar a ser fluxo até que as leis da termodinâmica venham cobrar os seus altos preços, e eu até posso considerar como essencial para essa movimentação de todas as coisas e linguagens e emoções e pessoas e segredos e sonhos este meu pequeno fluxo de pensamento que eu vou chamar apenas de eu mesmo (existem umas coisas meio inomináveis a respeito dele), e já que falamos de sonhos, eu abro um parêntese sem abrir parêntesis nenhum só pra dizer que às vezes um sonho é apenas um sonho, mesmo ele existindo como a construção meio empilhada de vários outros sonhos, e é muito racional sim pensar no meu pequeno mas limpinho fluxo de mim com mim mesmo como algo essencial para a manutenção de tudo no universo, o fluxo alfa, o fluxo guerra, é muito provável que tudo seja apenas uma guerra mesmo, ponto para o Heráclito, o obscurinho, isso se concordarmos com o fato de que ele tenha realmente existido, mas apenas se concordarmos que eu esteja existindo também (tenho lá minhas dúvidas sobre isso), eu vivo numa espécie de panfoco concentrado, cada vez mais concentrado e menor, eu sei que estou perdendo as visões periféricas, e as ideias periféricas, a realidade está se afunilando nela mesma, tudo está indo para o centro, que deveria estar em contraste com a periferia embaçada, mas ele está ficando turvo também, mexido, meu centro embaçado, e aí eu começo a pensar em doenças, cegueiras, tumores, tudo me passa por esta cabeça sem coração, eu me entendo nas incompreensões das pessoas e as pessoas nas minhas, acho isso belo, viver nas lacunas dos outros, todo mundo se embaralha na hora de se entender e vai deixando vários espaços vazios, aí algumas pessoas, tão loucas quanto os seus próprios espaços vagos, me colocam ali, nos vácuos, operação tapa-buraco, eu sirvo pra tapar os buracos das pessoas, eu acho isso uma coisa boa, eu só vejo bom sentido num buraco tapado, é um perigo a menos na vida, os buracos estão aí para serem tapados, eu não conheço ninguém que goste de um buraco, e é esta a minha função na vida, a pessoa me pega e tapa uma lacuna dela, o problema é que existem tantos tipos de buracos como existem pessoas, claro, então essas pessoas múltiplas acabam me usando para tapar múltiplos tipos de buracos, como os buracos sexuais, por exemplo, que são legais por um tempo limitado, ou os existenciais, que são chatos pacas, ou os trabalhistas, os financeiros, os simplesmente confusos, os sexuais, eu já falei esse, mas eu só repeti para parecer que eu trepo mais do que realmente trepo, pois não sobra muito tempo para essas diversões no final dos buracos, a gente precisa priorizar, maldição insuperável, esta de ser tapa-buraco do bem mais ou menos mal, eu sirvo pra qualquer buraco, só não me peguem pra jogar buraco, pois eu nunca fui muito habilidoso com nenhum tipo de carteado, está aí a minha prova de frouxice, é preciso ser muito homem para ficar sentado numa mesa verde e deixar que as cartas decidam a sorte por você, eu consigo ver a macheza nisso, claro, é preciso ser muito macho pra gostar de ficar ao redor dos outros machos, vejam as guerras, vejam os espartanos, vejam as saunas gay, e onde tem guerra, espartano e sauna gay, tem buraco, que é pra onde tudo acaba escoando mesmo, então três vivas e uma morte para o lugar onde tudo começa e acaba: o senhor buraco.

- Vaner Micalopulos





postado em por admin em prosa deixe um comentário

adicione comentário

www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top