fotocracia, o texto

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FOTOCRACIA

Nas temperaturas das sombras. Como um portal que se abre, janela depois de janela, em infinitas aberturas que comportam seres já habituados à escuridão. Esquecidos. Já não lembram mais da luz da cidade. E não percebem a verdade, ali iluminada: a luz vê a cidade.

O concreto desenha formas de natureza, numa inversão que nos faz pensar. A luz refrate e reflete e bloqueia suas escuridões primordiais na cortina de pó humano. Toda luz tem um ímpeto inicial em manter-se na treva. A vontade de existir quebra esta preguiça original. Não é muito diferente com as mulheres e os homens da cidade, vivendo submersos numa bruma de plástico que se espalha por todas as direções.

As luzes da cidade ficam mais intensas nas dobras das sombras que se formam nos recortes da arquitetura às vezes tão triste. Tão dura consigo mesma. A luz, na tentativa de suavizar a tudo, apenas aumenta o contraste, aumenta as diferenças, e põe tudo a perder. Ou quase.

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Os sinais luminosos avisam. Orientam. Controlam. Numa sociedade de controle a luz fica como uma prisioneira, tendo hora para existir, tendo hora para se extinguir. Como a humanidade. Meio com hora pra tudo.

Na luz piscante eu me vou e não vou. Quantos universos se formam entre o acender e apagar de uma luz? Imagino universos encravados nas dobraduras diluídas pelos movimentos fotométricos, num pulsar que marcaria o compasso da existência. Um relógio de luz. Nele eu meço minha possibilidade de ser algo pela quantidade de luz que se formaria a partir desse processo todo. É luz por cima de luz.

Na velocidade da luz eu penso que penso alguma coisa. Tudo acontece numa velocidade louca, iluminada, mas a preguiça está lá, apesar de tudo. Ela vai rápido, pois esta é sua natureza. Mas a preguiça está lá. Ela se força. Ali reside o seu poder: trata-se, pois, de uma fotocracia.

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Num movimento de feixe luminoso eu imagino os universos que se formam nos escapes dessas pequenas explosões óticas. A luz fria cobre o cimento queimado como se acreditasse que o cimento, queimado apenas no nome, precisasse de sua ajuda para aliviar um sofrimento que não está lá.

A luz percorre o tecido do concreto com a suavidade de algo que nos parece parado, exatamente como as paredes que ela pretende cobrir. Ela devolve aos objetos o seu lugar no espaço. É como um milagre de palavras difíceis.

Faça-se a luz. E ela se faz. Ninguém fez ou faz a luz. Ela se faz sozinha. Às vezes é necessário uma ordem, um primeiro motor. Mas não há criador. Fiat lux. E então ela se faz. E num momento de ínfimo sonhar ela se espalha pelo universo, antes tão escuro, antes tão sem espaço, e reivindica o que é seu. Uma tirania de iluminada inocência. Como uma criança que manda e desmanda nos pais, mas sem saber o que está fazendo. A luz é o que é. E é por isso que em não se fazendo, ela faz.

Luzes em multiversos, cortando caminhos na transformação do dia a dia. A luz que se esconde nela mesma, produzindo sombras que servem de esconderijo para os homens. E até a luz se beneficia disso. Escondendo-se nas cavernas criadas graças aos movimentos de suas próprias presenças. A luz também se beneficia de suas imperfeições. A isso chamamos “aberrações”. Uma aberração ótica é o resultado de uma luz que tentou fazer arte. E como nos maravilhamos com isso.

Luzes variadas abrindo espaço no tempo. Dilatando pupilas meigas. Viajando pelo horizonte que se curva pelo próprio viajar desse raio luminoso.

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Nos vidros tortos dos prédios. Nas pequenas ranhuras do concreto armado. Nos filamentos sem substância que a luz cria do nada. No ligar da câmera. Na abertura da objetiva meio capenga. Nos microcaminhos das placas fotossensíveis. Num quebrar de regras físicas. Num aprisionamento de luz que toma emprestado da ordem desta fotocracia cósmica um momento de fluxo imóvel. Trata-se de parar o tempo? Não. Trata-se de parar a própria luz.

As tonalidades que me tomam de surpresa. A luz dá a luz a si mesma.

No reflexo do cimento que lembra um mármore imundo. No borbulhar incessante das explosões luminosas que os vidros dos carros produzem com o seu passar bravio. No balé descompassado que chamamos realidade. Numa dança de olhos furiosos. Num suspirar ótico. Em você. Somos prismas.

E é assim, através de nós mesmos, que a luz vê a cidade.

- Vaner Micalopulos
*as imagens do post são stills extraídas do filme Photocracy, criado pelo Tulio Ferreira. O texto foi feito especialmente para o vídeo, que você pode ver aqui:

Photocracy from Tulio Ferreira on Vimeo.

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