GOTA CHATA

flux

Que saco, essa gotinha de chuva caindo no pescoço descoberto, num fluxo gelado chato, coisa chata, bem chata, eu tento não achar nada, deixar a mente pensar sem pensar, num puro fluxo, ler no fundo da consciência a frase fluxo-gelado-chato e deixar que ela, a mente, entenda sem explicar, deixar que a primeira sensação apareça, como essa que está se formando aí na sua cabeça, essa imagem, essa ideia, esse movimento que você sente quando pensa em fluxo-gelado-chato, é isso que acontece quando se fala em fluxo de pensamento, que, de certa forma, é um termo redundante, mais ou menos como falar movimento dinâmico, pois bem, estamos avisados das contradições, então esse fluxo tem que ser assim, fluídico, claro, que é o mais fundo da mesmice que a gente consegue chegar, e o próprio ato de escrever deve estar no seu estado mais natural e orgânico possível, e não se trata de uma escrita do subconsciente, eu ainda não aprendi a escrever dormindo, mas é muito mais do que isso, é uma mistura das consciências, um transe técnico, uma meditação estética, um tiro de corrida, doze quilômetros de ácidos lácticos devorando os músculos, aquele sempre iminente ataque do coração que nunca chega e que, por isso mesmo, nunca foi iminente no final das coisas, um bater incessante no teclado do computador, as ideias que se encavalam em fractais lindos de fumaça e as ridículas gotas de chuva que cismam em cair no meu pescoço descoberto, coisa irritante, um fluxo é esta entrega ao momento e a certeza de que tal entrega seja a única verdade comprovável e até mesmo realizável, nada de planos futuros ou histórias mortas, apenas um ponto no presente, um ponto largado no fluxo das ideias, respingando no meu pescoço descoberto, coisa irritante.

- Vaner Micalopulos





postado em por admin em prosa deixe um comentário

adicione comentário

www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top