íntimo do caos

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FAZENDO A ÍNTIMA COM O CAOS

Eu quero sentir o caos deslizando pelos dedos das minhas vãs babaquices. Eu quero sentir esse efeito de falsa autoestima bailando entre os pelinhos dos meu braços. Eu quero sentir o gosto do clichê na ponta da língua e experimentar o azedume de um amor fingido subindo pelo fígado em ondas sônicas do mais puro ranço hepático. Eu quero sentir as pontas do cabelo dela. Meio tarde para fazer sentido. Meio tarde para ser inteiro. Não me importo com essas amputações. Elas estão aí pois cumprem um papel importante na cadeia de falsidades, são atores importantes neste teatro do caos-da-boca-pra-fora (não se finjam entendidos em caos, por favor). Eu não lembro mais das pontas do cabelo dela. A memória, sempre nos protegendo. Fazendo sumir as lembranças ácidas. Boa memória. Seletiva. Funcionando de um jeito desfuncional. Não sei o que é o caos. Eu sou grego, mas nem tanto. Mas sei o que é a bagunça: está aí o meu lado brasileiro falando. Eu quero bagunça. Que é pra sentir o caos, logo de manhã, batendo na janela, montado num Dioniso coberto de sangue, perguntando se eu não estaria a fim de fazer uma bagunça por aí; eu apenas olharia no fundo dos olhos infinitos de Dioniso e ele me lançaria uma explosão solar em forma de desafio (e eu quase consigo ouvir sua voz quando ele faz isso, uma voz que é muito parecida com o assobio simpático de um golfinho esperto), mas eu não iria muito com a cara dessa alegria toda, dessa euforia de vinho com gás, e simplesmente não daria ouvidos. Não deem seus ouvidos a Dioniso. Ele é um canalha dos grandes. Eu recuso o convite e peço para ambos saírem da minha janela, pois estão tapando o meu sol de mentira. Eu não uso o caos em vão. Dioniso sabe disso, esse deus atentado, mesmo assim ele aparece, só para atazanar. É isso que dá se fingir de entendido em caos. Os dois (eles nunca se separam) começam com essas tentações. É que nem bêbado chato em festa: não pode dar bola. Então eu não dou atenção. Fecho a janela. Sinto o caos formando-se naqueles pequenos fosfenos que brilham com insistência ao fechar minhas pálpebras de treva pura e tento me contentar apenas com isso. Lembro das pontas do cabelo dela. Maldita. Esqueço. Viro de lado e sinto o caos querendo fazer conchinha. Muito gay. Desviro. Eu sinto o caos em todo lugar e continuarei a repetir isso até que ele bata na minha janela novamente, montando Dioniso, com seus desafios de criança chata. É melhor do que nada, acho. Eu sinto o caos chegando perto, querendo fazer a íntima. Eu não faço a íntima com o caos. Eu sou o caos. Mas só nas horas vagas. E nos feriados. Está na hora de fazer a íntima comigo mesmo.

- Vaner Micalopulos





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