olhonolho

olhos

o olho no olho. que não existe mais. que não há. agora é a vez do olho de soslaio. que é regra. que está aí: epidêmico. ninguém mais gosta de olhar com força dentro do olho do outro. isso é até visto como sinal de loucura. o olho parado: cara de louco. eu não tiro o olho do olho. eu prefiro passar como louco. pois louco é quem tem medo de olhar. ou quem gosta muito. aí entra aquela lengavelha de caminho do meio. equilíbrio e tals. tem que olhar, mas sem muito esforço. com uma elegância preguiçosa. uma alavancagem aveludada e um tiquinho de sacanagem. coisa que me preocupa: essa sociedade de olhos bambos. de olho pra lá e pra cá. ou se olha pouco. ou se olha muito. você vai ao bar e está todo mundo com os olhos fora de órbita. fora de suas mesas. de seus balcões. longe de tudo. e eu fico numa carência de olhar. preciso admitir essa viadagem aqui. neste peito aberto. neste olho tão acostumado aos imobilismos. eu sou mesmo um cara de olho parado. sinal de que tudo está se movendo aqui dentro. aqui dentro onde? sei lá: isso apenas faz parte do meu repertório de coisinhas que falo sem pensar. talvez não haja um: aqui dentro. e talvez não há nada dentro de: ninguém. e é por isso que os olhos andam tão evasivos. isso é falta de alma. tá todo mundo oco. complicado isso aí. a gente não se olha mais no olho. e o problema está num dentro que nem é dentro nenhum. a linguagem é bela. mas só fode.

- J.Castro
*ilustração de Thiago Micalopulos





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