fingindo escrever

não acredito. é ela. com ele. claro, isso tinha que acontecer. mais cedo. mais tarde. padaria de merda. ela está em todos os cantos dessa padaria. a nossa padaria. e agora ela vem com ele. que é bem o tipo dela e que ela me jurava que não era. que não é. coisinhas tão pequenas. ela não me viu. está com aquelas amigas, tão chatas. elas entrando, eu saindo. perfeito. é só passar na boa que ninguém me nota. e que cara ridículo. bem o tipinho dela mesmo. fôdasse. tô pagando. vai logo com o troco. vai rápido, senhorita do caixa. troco. obrigado. vou-me embora. ela me viu. saco. as amigas me viram. saco. que ridículo. o que eu faço? finjo que não é comigo (e não é mesmo, oras). saio da padaria. cabeça baixa. sinto que é preciso passar alguma coisa pela minha cabeça. nada. sinto que preciso ter um grande pensamento. nada. abro o caderno, não tenho absolutamente nada pra escrever, mas escrevo: ESCREVENDO ALGUMA COISA PARA PARECER QUE ESTOU ESCREVENDO ALGUMA COISA. fecho o caderno. agora sim. que cara ridículo.

— J.Castro





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mosaico

a noite se vai
neste mosaico
de espelhinhos quebrados
bem diante de mim
no balcão do bar amigo.

a mente mantém-se
nas frestas desses azulejinhos
que me refletem dum jeito quebrado
assim como eles.

é por um instante, apenas.

tudo é apenas
por um instante, apenas.

olho para as frestas:
a mente se foi.

é sempre assim:
a mente
também é mente
por um instante
apenas.


— Vaner Micalopulos


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estranho

Como as pessoas são estranhas
em suas variedades múltiplas de estranhezas.
Como sou eu também estranho
nesta ostra de mesa de café
e cadernos abertos ao vento.

Como sou eu estranho
em querer ser mais estranho
do que o resto dessas pessoas.
Como sou estranho nesse julgamento.

Sou estranho, mas acabo sendo
o mais normal de todos os estranhos.
É um esforço ao contrário.
Uma preguiça hiperativa.
Uma contradição que não cola.
E como sou estranho,
aqui, formulando paradoxos
dignos de um moleque barbudo
vivendo num eterno jardim de infância.

Como sou estranho
contento-me com esta infantil capacidade
em ser estranho e nada mais.

Sou estranho porque não sei ser outra coisa
e se isso fosse uma opção, se eu pudesse escolher,
eu preferiria não ser estranho (a vida seria mais fácil),
mas não é assim que funciona,
esses detalhes não se mudam assim, do nada.

Não existe cura para a estranheza.

Pois não existe cura para o que não é doença:
não é este um mote que se repete bastante ultimamente?

Como sou estranho,
acho normal ser estranho.
É na minha estranheza
que me normalizo com o mundo.

Como sou estranho
sinto uma leve decepção ao concluir,
que sou apenas normal.
Dói-me. Gosto de ser estranho. Prefiro.

Como sou um eu estranho, prefiro ser estranho.

Estranho ser estranho.

Mas prefiro mesmo assim.


— Michel Consolação


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pagonada

pago caro
pelos atos
que compro
mas não pago
com a mesma
moeda:
pago com juros
se necessário
mas nunca
em espécie:
não pago mico
nem o pato
e nem bicho
nenhum:
tô pagando
pelos pecados
ainda
que são caros
e não pago
pra ver:
pago a língua
e muito:
não pago pau
pois não sou
fresco:
pago as custas
o mal pelo bem
pago pra você
e pra mais ninguém:
ok?

- J.Castro


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bardos

morte. não morte. eu era um cara sem fé: aí eu vi a ponta do meu pé: entrando no crematório. depois daquilo, eu acabei aqui, torcendo por eternidades. eu visto a camisa. sou um buda anacoreta. trilho o caminho do pra sempre. não acredito em renascimentos, pois eu tenho certeza que renascimentos existem. e lembro da minha última vida: eu era um enorme babaca. quero fazer tudo direito desta vez. juro que quero. a morte está aí. fungando no cangote. deve-se estar preparado. para garantir boas direções na confusão kármica dos estágios intermediários do vida-morte-vida. os tibetanos chamam esses estágios de bardo. acho essa palavra do caralho. com o perdão da profanação. não misturemos budismos com caralhos. o dharma pede calma. não sei o que é sentir calma há muito tempo. budista de shopping que sou. transformar preguiça em músculos. não serei um babaca nesta vida. apesar de, talvez, já ser meio tarde pra isso. nunca é tarde. só a morte interrompe o processo. é preciso se equilibrar entre as interrupções. necessárias. inadiáveis. manter os olhos abertos. e morrer. mais uma vez.

- J.Castro


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você

descobrindo novas maneiras de descobrir você. e eu repito muito a palavra você, mas é que sempre existe um você no meio da zoeira, então eu tenho que ser repetitivo mesmo. às vezes é você. às vezes é outro você. na maioria das vezes tem sido você, mesmo que você não acredite, mas é verdade: é você. então deixa: eu descobrir: você.

- J.Castro


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Renato Russo: azedoce

Trechos de algumas entrevistas de Renato Russo. Nelas, com aquele característico tom azedinho doce, Renato fala sobre amor romântico, amizade, a proliferação do fascismo na sociedade brasileira (muito atual), a falta de entendimento da crítica e outras coisas mais, com aquela impaciência gostosa que tanto nos cativava (e cativa, eternamente). No final do post, o link para as entrevistas na íntegra.

1) O que é Legião Urbana?

2) A (doce) paranoia de Renato Russo.

3) A crítica e o (não) entendimento.

4) “Estão fazendo com que o Brasil se transforme num país de assassinos”.

5) Nazista em tudo que é canto.

6) “Hoje em dia eu não acredito em amor romântico, não”.

As entrevistas inteiras, aqui: https://youtu.be/6oPc7jsxBAE

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Papais Noéis do mal

O Natal está chegando e é claro que as tradicionais fotos de Papais Nóeis bizarros, assustadores e zumbis começam a pipocar pela rede. Nós escolhemos algumas das imagens mais engraçadas (e, para algumas das crianças retratadas, traumatizantes). Divirtam-se.

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