POEMA(NÃO)PLANEJADO

PICA

POEMA(NÃO)PLANEJADO

eu nunca planejei
um texto que fosse
na minha vida inteira.

apenas os ruins:
esses foram planejados.

catástrofes anunciadas.

e não sei bem o que dizer
sobre este aqui que começa a se formar
mas eu já sei que ele será um texto metido
por já ter começado com metalinguagens floridas
e manobrinhas maneiras de espelho.

não direi se ele foi planejado
ou não.
(faz parte do mistério
manter o mistério)
isso eu deixarei pra vocês
adivinharem.

e eu até já dei uma dica
pois disse que o poema planejado
é aquele que ruim fica.

(espaço reservado
para dizer que pintou uma vontade freudiana
de rimar o óbvio com o óbvio e dizer “pica”)

eu perco a amizade
mas digo: pica.

está na cara
que este poema
não foi planejado:
então ele será dos bons
(apesar das picas).

mas isso apenas
se eu não acabar com tudo agora mesmo
antes que este texto metidinho
tenha tempo para se revelar
um bom poema não planejado.

e eu acho que ele vai acabar mesmo
então não vai dar, desculpaê
não deu pra ser um bom poema não planejado
por pura impaciência do poeta:
vocês podem dizer isso por aí.

deixemos assim:
potencialmente bom.

pois minha qualidade
é virtual.

minhas virtudes
existem mais ou menos.

é óbvio
que este poema
não foi planejado.

e já era pra ele ter acabado
mas a letra está tão boa
que eu prefiro continuar
continuando.

sou uma metralhadora de inutilidades
confesso
e até queria ser um poeta mínimo
o tipo de poeta que fala muito
com pouco
mas eu gosto de embalar nas palavras
mesmo que elas não queiram dizer nada
(eu acho que poesia é isso aí:
uma obrigação de repetir o inútil).

poesia de vento.

poesia não planejada é assim mesmo.

uma hora o poeta
começa a falar sobre ele.

eis a minha especialidade:
eu mesmo.

eu fui o terror das escolas
a decepção das professoras
a úlcera dos chefes
a incompreensão das namoradas
eu fui o melhor em ser nada
e tudo porque eu gasto muito tempo
especializando-me em ser eu mesmo.

numa louca egotrip
de ontologias radicais.

vejam isso:
eu sou o maior especialista
do universo
em mim mesmo.

analisando por este lado
até que não parece tão ruim.

pelo menos eu manjo
de alguma coisa.

um poema que não se planeja
sempre acaba em suposições melindrosas
sobre o mim mesmo.

ou sobre a sorte.

eu tenho muita sorte.

pois já era para eu ter morrido
em pelo menos uma meia dúzia
de situações extremamente ridículas
e constrangedoras.

e estou aqui.

fazendo poesia não planejada.

mas as coisas poderiam ser piores, afinal.

eu poderia estar fazendo
a da planejada.

— Vaner Micalopulos





postado em por admin em poesia deixe um comentário

adicione comentário

www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top