O POETA ESCROTO NÃO TEM CULPA

culpa

O POETA ESCROTO NÃO TEM CULPA

Sou de entregar-me
às faltas de entregas da vida.
Quem só vê o poema deixa passar batido
o escroto que, às vezes, eu sou.

Ninguém quer poesia
de escroto.

Com o perdão do trocadilho besta:
poesia de escroto deve ser mesmo
um saco.

O poeta tem que estar perto
da escrotidão humana,
deve passar por perto da sujeirada
e tirar casquinhas perigosas
da miséria espalhada,
mas sem se deixar levar
pelo balanço do mal.

O poeta deve ser
impermeável.

É nessa impermeabilidade
que ele se salva.

O poeta deve viver meio de longe,
num aquário de paredes finas,
algo que o separe das imundícies,
mas sem o separar das vistas do povo.
Pois ele precisa ser visto também,
em alguns casos até mais do que ver.
A visão não serve de nada para o poeta.
Está aí uma enorme lista
de poetas cegos e míopes
que confirma o que digo.

Quando as pessoas miram o poeta,
os poemas saem aos borbotões.

É uma coisa de pura vaidade,
vocês podem dizer aí.

Eu só acho que é
uma inocente necessidade.

Os outros nos olham
e nós vomitamos
nossas besteiras.

Enorme bobagem?
Puro exibicionismo?

Então quer dizer que todo mundo
pode ser exibido, menos o poeta?

Sacanagem isso aí, viu?

É que a poesia
bota uma seriedade nos assuntos.

Fica difícil ser qualquer outra coisa na vida
quando a poesia já está por aí
acabando com essa meia vida do poeta.

Então é isso mesmo:
fica tudo sendo culpa
a gente sabe de quem.

A culpa é do poema.

- Michel Consolação





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