seus olhos meus

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SEPARAÇÃO CIRÚRGICA

Olhos seus, que bem poderiam ser meus, com o perdão da psicose fofa, tão feio isso, tão coisa antiga, a modernidade é esquizofrênica, não psicótica, a psicose é uma epidemia dos anos oitenta, não que eu entenda do assunto, mas isso saiu legal (analisando a tudo pelo ponto de vista de um diagnosticador de texturas psicológicas), eu apenas acho, honestamente, que deveríamos pensar menos e olhar mais, é esta a maior lição de todas, os poetas falam isso há eras, então não me olha com essa cara de que já era, não adianta decretar o fim do sei-lá-o-quê sem me consultar, eu sei que tenho uma parte menor nisso tudo, nesse troço de nós dois, nesse combinado de olhar torto, mas ainda somos sócios, parte dos seus olhos ainda são meus, e eu ainda me esgano nessa vontade de raptar a essência dos movimentos mais ínfimos dos seus globos oculares gordos (eu falava isso, globos oculares gordos, e você sorria), esses olhos seus, então assumo logo que os queria de uma maneira psicótica, eu sou bem anos oitenta mesmo (está na moda ainda curtir coisas dos anos oitenta?) e tudo daquela década é um super estímulo para os olhos, esses olhos cansados, que não aguentam mais, tudo é imagem hoje em dia, o olhar sofre com isso, e eu sei que o olho é seu, mas é meu também, somos sócios nisso de estarmos cirurgicamente ligados um ao outro, enfim, e é claro que a separação também envolve cirurgias, você pode levar isso no sentido metafórico da coisa se assim quiser, só que eu nunca fui muito bom com metáforas de coisas e, na verdade, eu falei-escrevi tudo que falei-escrevi apenas pra falar-escrever isto: que você cuide melhor dos seus olhos, pois amanhã eles serão meus.

- Vaner Micalopulos
*ilustração de Thiago Micalopulos





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