ASSIM: NADA ACONTECE.

assins

Eu tenho memórias de gente bicuda. Eu tenho esses relances sem noção, ou sentido, ou direção, que não querem dizer nada, por serem insignificantes e sem profundidade nenhuma, por apenas serem. Coisa nenhuma.

Eu tenho essa impressão de que já vi de tudo e uma esperança banal de que tudo se resolva de uma vez ou se explique num relance de ideias e hormônios. Eu tenho essa esperança de que tudo se desenrole, assim, do nada.

Ó o nihil aí, poeta.

Mas isso nunca acontece. A gente espera e espera e espera. As coisas nunca se desenrolam do nada. Assim, do nada. Assim vamos. Assim. Eu não sou muito bom com assins. Eles não me entendem, assim como eu não os entendo, por isso vamos levando a vida, assim, desse jeito mesmo, e espera pra ver o que acontece. Assim. Espera. E nada acontece.

Assim: nada acontece.

Na verdade, as coisas são baixas e sem honraria nenhuma. Elas começam, às vezes, por causa de tiques linguísticos, como esse meu, que era o de começar um texto com “eu tenho”. Sem mistério. Sem nada. Tudo acaba como começa. Eu tenho. Ou tinha?

- Vaner Micalopulos




postado em por admin em prosa deixe um comentário

NÃO.ERA.PRA.SER

não era, né?

não era pra ser. está aí um paradoxo daqueles. e que a gente joga no meio de qualquer discussão. é um argumento que destrói. pois não significa nada. não era pra ser, então nunca foi, nunca será e não passou de uma possibilidade. como não foi, agora não é nada, mas é um tipo de nada que sempre aparece na forma de um clichê como “não era pra ser” e que dá a entender que já que não era pra ser mesmo, ele pode ficar aí zanzando na forma de um nunca realizado “era pra ser”. era. não era. repito os mesmos erros num frenesi de catuaba selvagem. e fico perdido entre os infinitos espaços entre o era e o não era. não sou o primeiro a dizer isto: a visão do tudo me assombra. então eu prefiro deixar pra lá e lembrar, docemente, que simplesmente não era pra ser.

- J.Castro

postado em por admin em prosa deixe um comentário

ASSIM ASSADO

assim como?

eu sou assim. quando sou o assunto da roda, eu já reajo com um “eu sou assim”. e dane-se. eu estou precisando dessa redução. eu quero abreviar tudo com um “eu sou assim”. briga de casal, a partir de hoje, já estão todas resolvidas, antes mesmo de começarem. estão póstumas. eu já mando um “eu sou assim” logo de cara. se reclamarem que falo baixo – pode não parecer, mas eu falo baixo -, eu só responderei com um também muito baixo “eu sou assim”. e pronto. vai cada um pro seu canto. uma das regras primordiais da vida é a satisfação mútua. eu lavo a sua mão e você lava a minha. mas a regra deve ser assim: equânime. não vale limpar a bunda de alguém que está apenas disposta a lavar as suas mãos. infelizmente, nos dias de hoje, as coisas estão assim: muitos lavadores de bundas e poucos de mãos. tem que ver isso aí. pois essas coisas não podem ficar assim. a única coisa que deve permanecer assim, no meio de todo esse tumulto, não é uma coisa, mas um indivíduo, assim, como eu. no meio da ebulição, uma pequena bolha de permanência: um eu assim. e deixem-me, porque eu sou assim.

— J.Castro

postado em por admin em prosa deixe um comentário

dá eu

me dá um tempo. me dá um resfriado. me dá o seu tempo. me dá suas esperanças na forma de mijo e pus. me dá você, mais uma vez, mas só mais uma vez. me dá um vírus aí. qualquer um. me dá. me dá você sabe o quê? o quê? me dá. me dá sangue. me dá qualquer coisa, menos você: eu disse que seria só mais uma vez. me dá dinheiro. me dá uma dor de cabeça. me dá uma veia estourada no cérebro. vai, dá. assim, no imperativo mesmo. me dá isso aí que você tá tomando. me dá um pouco de tá. vai, fala: tá. me dá um pouco dessa sua esperança torpe. não, não me dá isso: esperança é coisa de gente fresca. me dá o lixo da humanidade destilado em duas pequenas doses de ácido lisérgico estragado. me dá um pouco daquilo que você não dá pra ninguém, vai, quero ver se você tem coragem. me dá. me dá. e não me peça nada em troca: eu não dou nada. me dá um trago. me dá um tapa. me dá uma ignorada, eu tô precisando ser ignorado, eu quero mesmo que as pessoas não me deem nada, só pra eu ficar pedindo à toa. me dá aí. faz um exercício de falsa compaixão. me dá sua melhor amiga. me dá um pedaço desse seu universo idiota: eu quero saber como é ser uma idiota que nem você. me dá qualquer coisa. hoje eu tô assim: recebendo a porcaria alheia. me dá o que você não quer mais: mesmo que isso aí seja eu. me dá eu.

— J.Castro

postado em por admin em prosa deixe um comentário

FACINHO

fácil, fácil

mina assim, mina assado. eu não tenho preferência ou gosto pra mulher. e já estou ouvindo as meninas, em coro telepático, pensando: “que lindo”. lindo nada. é que eu sou facinho. é diferente. eu sou que nem o rei Roberto Carlos: abraço todas. gordinha, magrela, cabelo sarará ou alisado, tanto faz. eu não quero é muito me preocupar com essas coisas de seleção, esse darwinismo de espelho. tantas máscaras, tantas camadas, colocadas cuidadosamente diante do espelho triste. eu tô fora dessas coisas de espelho. sou chegado em padrões aromáticos e gestos de feromônios. eu consigo ver os riscos dos feromônios desenhados no ar. pois é assim que eu quero agora. uma volta ao estado primordial. um tacape na cabeça. mas com a diferença de que, agora, o tacape pode ser empunhado pelos dois sexos. eu tô louco pra tomar uma tacapada na cabeça. assim fica mais fácil ser facinho.

- J.Castro

postado em por admin em prosa deixe um comentário

LABIRÍNTICO

labirinto

postado em por admin em prosa deixe um comentário

DESFAZENDO

tudo que faço

eu me desfaço. é tudo que faço. neste copo vazio, eu me fui. no olho louco de fantasma faminto da ruiva que fala muito, eu tô indo. vou me desamarrando, aos poucos, porque não sou muito bom com os laços. eu quero me desmontar. não é que eu me odeie. não, eu me amo. mas é que não tenho nada melhor pra fazer. então eu me desmonto, só pra depois ter que me montar de novo. é um bom exercício. então eu vou indo. porque eu não aguento mais essa ruiva falando na minha cabeça. vou me desligando. pra ir embora. o copo está vazio. e eu também.

— J.Castro

postado em por admin em prosa deixe um comentário

TEMPO CHATO

tempo?

TEMPO CHATO

Somos feitos do agora. Agora mesmo, estamos nos construindo de vários agoras. Agora aqui. Agora lá. Existindo apenas neste instante, que nem é instante, pois é muito menos do que isso. Eu não sei o que é. Eu só sei o que não é: e instante não é. Então temos aí, nas mãos, essas infinitas possibilidades de futuros, para trás e para frente, e até mesmo várias opções de futuros que estão acontecendo agora. Mesmo assim, o futuro não é, não existe; e vivam com essa. Não tem nada feito, nem prato feito, nem jogo feito, está tudo em aberto porque tudo é agora e este agora é a consequência de inumeráveis outros agoras que reverberam uns sobre os outros, para trás e para dentro, projetando uma experiência do real experimentada por nós como essa patética flecha do tempo com a qual nos acostumamos e sobre a qual construímos toda nossa experiência da dita realidade. Fica tudo indo apenas de trás para a frente, eternamente, numa chatice cósmica. Uma flecha de trás pra frente, em duas dimensões, achatada. Chato. Um tempo chato. E a gente gosta dessa chatice. A gente até defende essa chatice. Eu fico aqui, cheio de mãos, sem saber o que fazer com elas. Tantas possibilidades. Tantas mãos. Tão pouco tempo. Tempo chato.

- Vaner Micalopulos
- ilustração de Thiago Micalopulos

postado em por admin em os gráficos, prosa deixe um comentário
www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top