EI. VOCÊ AÍ.

lesbic

ei. você aí. é verdade que você é lésbica? desculpa, é que não parece. eu sei, muito babaca da minha parte. afinal, o que é parecer alguma coisa? desculpa. é que eu fiquei meio querendo, enfim, conversar com você. e parece que o fato de você gostar de meninas está criando alguma barreira entre nós. desculpa, de novo. eu vou falar desculpa umas tantas vezes hoje. desculpa, mas você não parece, sabe, desculpa, não sei se consigo me expressar bem, desculpa. sim, eu sei, mulher odeia homem que se desmonta em desculpas. lésbica então nem se fala, né? desculpa, muito cedo para piadinhas sobre sexualidades e tals. desculpa, né? tá vendo, eu sou bem uma moça às vezes. quer dizer, de repente você pode me ver com outros olhos. mas eu já aviso que não depilo o corpo. e nem me peça isso. eu sou uma moça, mas nem tanto. uma moça peluda. eu aposto que você não raspa o sovaco. muito estereotipado da minha parte achar um troço desses? pode ser, mas esse seria um estereótipo que cairia bem em você. desculpa, está muito cedo também para falar sobre sovacos. está meio cedo pra tudo, convenhamos. é por isso que eu quero entardecer com você. até anoitecer, de repente. quem sabe? eu prometo que falarei menos. você já viu que eu sou uma metralhadora de palavras. não sei de onde vem isso. acho que é nervosismo. tão frágil, né? sexo frágil. está aí um estereótipo daqueles. sexo frágil me lembra caixa de mudança, sabe? todas as caixas de uma mudança são frágeis, não? você já percebeu? até a lista telefônica é frágil numa mudança. é por isso que eu sou tão, digamos, frágil: é que eu sempre estou de mudança. eu já falei que sou escritor? é, eu sou. e não tô querendo me mostrar, tanto que você nem sabe quem eu sou, então está óbvio que eu sou um escritor meia-pataca. você faz o quê? não, não responde, vamos parar com essas andanças lógicas. com essas introduções todas. que coisa horrível. manjada. e eu já comecei tão mal, com esse papo de lésbica. você tem certeza que é lésbica? aposto que já pegou uns caras. ou namorou um cara que lhe causou uns traumas aí nessa sua cabecinha perturbada. olha o estereótipo de novo, desculpa. mas você, hem? afe. e agora você está indo embora. eu fiquei sabendo que você estava indo embora porque nós temos amigos em comum. eles me falaram. eu já fiquei a noite toda meio sem saber o que fazer com você zanzando de um lado pro outro por aí. chove. não molha. sabe? e os amigos, bons pra nenhuma hora, já me alertando: “ela é lésbica, desencana. e, além disso, tá indo embora”. é mesmo? é lésbica e ainda por cima está indo embora? aí eu fui. quer dizer: vim. e você vai embora mesmo, né? tudo bem. você deve ter uma namorada que está vindo lhe pegar, é isso? ou esperando em casa. eu sei, desculpa. acho que esta será a última vez que eu pedirei desculpas esta noite. você estava indo embora. aí eu não soube mais o que fazer. tchau. prazer. eu nem falei o meu nome. merda.

- J.Castro




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ASSIM: NADA ACONTECE.

assins

Eu tenho memórias de gente bicuda. Eu tenho esses relances sem noção, ou sentido, ou direção, que não querem dizer nada, por serem insignificantes e sem profundidade nenhuma, por apenas serem. Coisa nenhuma.

Eu tenho essa impressão de que já vi de tudo e uma esperança banal de que tudo se resolva de uma vez ou se explique num relance de ideias e hormônios. Eu tenho essa esperança de que tudo se desenrole, assim, do nada.

Ó o nihil aí, poeta.

Mas isso nunca acontece. A gente espera e espera e espera. As coisas nunca se desenrolam do nada. Assim, do nada. Assim vamos. Assim. Eu não sou muito bom com assins. Eles não me entendem, assim como eu não os entendo, por isso vamos levando a vida, assim, desse jeito mesmo, e espera pra ver o que acontece. Assim. Espera. E nada acontece.

Assim: nada acontece.

Na verdade, as coisas são baixas e sem honraria nenhuma. Elas começam, às vezes, por causa de tiques linguísticos, como esse meu, que era o de começar um texto com “eu tenho”. Sem mistério. Sem nada. Tudo acaba como começa. Eu tenho. Ou tinha?

- Vaner Micalopulos

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NÃO.ERA.PRA.SER

não era, né?

não era pra ser. está aí um paradoxo daqueles. e que a gente joga no meio de qualquer discussão. é um argumento que destrói. pois não significa nada. não era pra ser, então nunca foi, nunca será e não passou de uma possibilidade. como não foi, agora não é nada, mas é um tipo de nada que sempre aparece na forma de um clichê como “não era pra ser” e que dá a entender que já que não era pra ser mesmo, ele pode ficar aí zanzando na forma de um nunca realizado “era pra ser”. era. não era. repito os mesmos erros num frenesi de catuaba selvagem. e fico perdido entre os infinitos espaços entre o era e o não era. não sou o primeiro a dizer isto: a visão do tudo me assombra. então eu prefiro deixar pra lá e lembrar, docemente, que simplesmente não era pra ser.

- J.Castro

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ASSIM ASSADO

assim como?

eu sou assim. quando sou o assunto da roda, eu já reajo com um “eu sou assim”. e dane-se. eu estou precisando dessa redução. eu quero abreviar tudo com um “eu sou assim”. briga de casal, a partir de hoje, já estão todas resolvidas, antes mesmo de começarem. estão póstumas. eu já mando um “eu sou assim” logo de cara. se reclamarem que falo baixo – pode não parecer, mas eu falo baixo -, eu só responderei com um também muito baixo “eu sou assim”. e pronto. vai cada um pro seu canto. uma das regras primordiais da vida é a satisfação mútua. eu lavo a sua mão e você lava a minha. mas a regra deve ser assim: equânime. não vale limpar a bunda de alguém que está apenas disposta a lavar as suas mãos. infelizmente, nos dias de hoje, as coisas estão assim: muitos lavadores de bundas e poucos de mãos. tem que ver isso aí. pois essas coisas não podem ficar assim. a única coisa que deve permanecer assim, no meio de todo esse tumulto, não é uma coisa, mas um indivíduo, assim, como eu. no meio da ebulição, uma pequena bolha de permanência: um eu assim. e deixem-me, porque eu sou assim.

— J.Castro

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dá eu

me dá um tempo. me dá um resfriado. me dá o seu tempo. me dá suas esperanças na forma de mijo e pus. me dá você, mais uma vez, mas só mais uma vez. me dá um vírus aí. qualquer um. me dá. me dá você sabe o quê? o quê? me dá. me dá sangue. me dá qualquer coisa, menos você: eu disse que seria só mais uma vez. me dá dinheiro. me dá uma dor de cabeça. me dá uma veia estourada no cérebro. vai, dá. assim, no imperativo mesmo. me dá isso aí que você tá tomando. me dá um pouco de tá. vai, fala: tá. me dá um pouco dessa sua esperança torpe. não, não me dá isso: esperança é coisa de gente fresca. me dá o lixo da humanidade destilado em duas pequenas doses de ácido lisérgico estragado. me dá um pouco daquilo que você não dá pra ninguém, vai, quero ver se você tem coragem. me dá. me dá. e não me peça nada em troca: eu não dou nada. me dá um trago. me dá um tapa. me dá uma ignorada, eu tô precisando ser ignorado, eu quero mesmo que as pessoas não me deem nada, só pra eu ficar pedindo à toa. me dá aí. faz um exercício de falsa compaixão. me dá sua melhor amiga. me dá um pedaço desse seu universo idiota: eu quero saber como é ser uma idiota que nem você. me dá qualquer coisa. hoje eu tô assim: recebendo a porcaria alheia. me dá o que você não quer mais: mesmo que isso aí seja eu. me dá eu.

— J.Castro

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FACINHO

fácil, fácil

mina assim, mina assado. eu não tenho preferência ou gosto pra mulher. e já estou ouvindo as meninas, em coro telepático, pensando: “que lindo”. lindo nada. é que eu sou facinho. é diferente. eu sou que nem o rei Roberto Carlos: abraço todas. gordinha, magrela, cabelo sarará ou alisado, tanto faz. eu não quero é muito me preocupar com essas coisas de seleção, esse darwinismo de espelho. tantas máscaras, tantas camadas, colocadas cuidadosamente diante do espelho triste. eu tô fora dessas coisas de espelho. sou chegado em padrões aromáticos e gestos de feromônios. eu consigo ver os riscos dos feromônios desenhados no ar. pois é assim que eu quero agora. uma volta ao estado primordial. um tacape na cabeça. mas com a diferença de que, agora, o tacape pode ser empunhado pelos dois sexos. eu tô louco pra tomar uma tacapada na cabeça. assim fica mais fácil ser facinho.

- J.Castro

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LABIRÍNTICO

labirinto

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DESFAZENDO

tudo que faço

eu me desfaço. é tudo que faço. neste copo vazio, eu me fui. no olho louco de fantasma faminto da ruiva que fala muito, eu tô indo. vou me desamarrando, aos poucos, porque não sou muito bom com os laços. eu quero me desmontar. não é que eu me odeie. não, eu me amo. mas é que não tenho nada melhor pra fazer. então eu me desmonto, só pra depois ter que me montar de novo. é um bom exercício. então eu vou indo. porque eu não aguento mais essa ruiva falando na minha cabeça. vou me desligando. pra ir embora. o copo está vazio. e eu também.

— J.Castro

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