MEDOS

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meus medos em ordem cronológica, então: medo de ficar sozinho, medo de escuro, medo de socializar, medo de que abram a porta do banheiro, medo de que me vejam, medo de beijar, medo de tirar a camiseta, medo de acender a luz, medo de apanhar, medo de levantar a voz, medo de mantê-la baixa (adolescência tem dessas contradições), medo de envelhecer, medo acadêmico, medo trabalhista, medo filosófico, medo do medo, medo de escrever bobagens, medo de escrever, medo na rua, medo em casa, medo nas festinhas de família, medo nas baladas, medo da bebida malhada, medo dos sintomas, medo do pavoroso fato: a vida é medo, pois bem, pavoroso, pois bem, esta tristeza agonizante que não me deixa fazer nada, nada.

- J.Castro




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SINTAM MAIS. OLHEM MENOS.

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ninguém nunca me ensinou nada. porque a única coisa importante na vida é saber olhar. e isso só se aprende fazendo. não tem como alguém pegar o seu olho e fazer com que ele funcione da maneira correta. não dá nem mesmo pra guiar o olhar, como gostam de dizer aí em escolinhas que só amputam as sensibilidades das pessoas. eu olho sozinho. todo mundo olha sozinho. e é claro que eu estou usando as palavras olho e olhar, mas eu não estou falando da visão. então acho que preciso encontrar outra palavra pra essa aptidão, já que chamar de olho ou olhar chega a ser uma enorme sacanagem com quem não enxerga. e eu já disse, em outro lugar, que a visão não é o sentido mais importante. é o tato. taí: não é o olhar que a gente precisa desenvolver, mas o sentir. sintam mais e olhem menos. é simples assim.

— J.Castro

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PARECE BEM

bem

(é ela, meu deus, por que essas merdas só acontecem comigo? eu tinha certeza de que ela não estaria aqui. mas ok, ela tá aí, e tá bela, filhadaputa, ela poderia estar feia só pra eu fazer algum comentário sacana, não, eu não faria isso, eu só queria ter coragem pra fazer, mas eu não faria. eu acho essa filhadaputa bela de qualquer jeito. falo alguma coisa? sorrio, pergunto se está tudo bem, finjo que eu mesmo estou bem?)
- oi.
- oi.
(oi? que oi o quê? eu não tenho que ficar dando oi pra ela, mas agora já foi. vou ficar só no oi mesmo, porque eu não gasto nem mais um segundo de linguagem com essa sem vergonha. ok, eu tô gastando linguagem pensando furiosamente nisso, mas pelo menos eu mantenho as aparências e não falo nada.)
- você tá bem?
(se eu tô bem? vejamos, eu poderia começar com a verdade e dizer que não, claro, mas quem responde não a uma pergunta dessas? as pessoas achariam que é manha e ela vai achar que é manha mesmo, que eu tô querendo começar uma discussão. mas eu também não falarei que sim, pois eu não tô bem, e é claro que eu não tô bem por causa dela, e é claro também que eu nem quero que isso fique claro, pois tá na cara que eu não tô bem, minha filha…)
- tô, e você?
- também, também. você parece bem mesmo.
(ok, eu não sei mais como interpretar isso porque eu nem lembro mais como interpretar qualquer coisa que sai da sua boca. eu pareço bem o quê? ou eu pareço que tô bem? é isso? frase mal feita do cacete. eu posso simplesmente deixar essa conversa no meio e fingir um desmaio, eu dou um rodopio e caio no chão, o que não seria tão ruim assim, esse monte de teatro, mas a camisa tá limpa, então é melhor não, catso, que merdinha eu sou, preocupado com a camisa, foi por isso que ela te largou, foi por isso que você me largou, né?)
- obrigado, você parece bem também..
(obrigado, claro, obrigado por ter me destruído, obrigado pela ressonância enjoativa que você provocou na minha vida, obrigado por estar sempre presente nas ausências fundamentais de tudo, obrigado mesmo, eu acho até que deveria agradecer por você ter me destroçado, ver a tudo como uma oportunidade para praticar o meu budismo, você deveria ser uma daquelas coisas que nos abrem os olhos, mas eu tô aqui de olho aberto e não enxergo nada mesmo assim: miserável clichê. e você tá bem mesmo, não como eu, que não estou bem, mas pareço estar, só pareço que estou bem, pois eu pareço bem que estou parecendo bem, meu bem.)
- que bom que estamos bem, então.
- bem, eu não diria exatamente bem…
- você sabe… ultimamente eu ando pensando muito em você.
(rodopio. desmaio. foda-se a camisa, meu bem.)

J.Castro

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NÃO ERA PRA SER

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não era pra ser. está aí um paradoxo daqueles. e que a gente joga no meio de qualquer discussão. é um argumento que destrói. pois não significa nada. não era pra ser, então nunca foi, nunca será e não passou de uma possibilidade. como não foi, agora não é nada, mas é um nada que sempre foi um não era pra ser. e já que não era pra ser, ele acha que pode ficar aí zanzando na forma desse nunca realizado era pra ser. era. não era. repito os mesmos erros num frenesi de catuaba selvagem. e fico perdido nos infinitos espaços entre o era e o não era. não sou o primeiro a dizer isto: a visão do tudo me assombra. então eu prefiro deixar pra lá e lembrar, docemente, que simplesmente não era pra ser.

- J.Castro

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