a soma

rostinho arrebitado. nariz idem. arrumadinha pra cima. mas não naquele sentido meio pejorativo do arrumadinha. não tem nada de pejorativo em você. muito menos de meio. você é toda inteira. e é claro que você acha que eu falo isso pra todas. eu não falo. eu escrevo. e você está agora, aqui, virando letra. você e esse lábio superior apontado pra cima. esse dente aparecendo. aposto que você odeia esse detalhe. deve achar que é defeito. mas você não sabe de nada. pois a soma dos seus defeitos dá um efeito daqueles. e você nem se dá conta disso.

- J.Castro




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patoprato

na praça dos patos. o calor é tanto que só os patos se aventuram. no calor dos patos. é tanto calor que eu não sei. e você fica aí: colocando as coisas em pratos limpos. as coisas que falamos. as coisas que rimamos. elas estão aí, flutuando no éter. não servem pra nada. ou não servem mais. não adianta colocar as rimas em pratos limpos. a rima já era. pelo menos até a próxima moda. os patos enfiam suas cabeças por entre as asas que daqui me parecem tão molhadas. os patos. nos seus pratos. imundos.

- J.Castro

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repete aí

você me diz o quão repetitivo eu sou. acho graça. como seria possível alguma coisa no universo sem a repetição? você acha que a vida só existe por quê? repetição. o resto é fluido. água, suor, lágrima, sangue: os sumos do corpo. e os erros que tanto insistimos em repetir e que ainda repetiremos infinitas vezes? os movimentos dos seus olhos loucos, tantas vezes repetidos à frente do espelho: como seriam eles também possíveis sem essa repetição mecânica? é na repetição mecânica que se chega à perfeição orgânica. isso eu aprendi com você. e as músicas que repetimos estupidamente? e os poemas repetidos? minha poesia precisa desse modo de repetição para se instalar nos mármores únicos de suas espáduas sem fim. e como parar de repetir esse deslizamento do eu nesses vales fundos do seu colo único? você repete: eu não lhe repetirei. eu sei que é mentira. eu repito o meu escárnio. você vai embora, toda brava. amanhã a gente se repete.

- J.Castro

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descurto

o facebook não precisa do botão para descurtir. ele já existe. é o botão para curtir. com suas infinitas utilidades. pois todo mundo já recebeu uma curtida indevida na vida. a curtida com cheiro e jeito de descurtida. a curtida da ex-namorada. a curtida do amante sacana. a curtida do invejoso de plantão. a curtida inimiga. a curtida maliciosa. a curtida com múltiplos significados. há quase uma linguagem completa nisso. não curto. tenho mais pra fazer com a minha vida do que ficar curtindo coisa que não curto. desculpe a lição de moral. não curtiu? então curte aí.

- J.Castro

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casos de família

família lá. família cá. existe por aí uma supervalorização da ideia de família. nem toda família é boa. essas pessoas que defendem a ultracaretização do conceito de família também tiveram suas famílias. foram elas boas ou ruins? sei lá. não farei o mesmo que os ultracaretas. não meterei o dedo na família alheia. não me importo se elas, as famílias, são boas ou ruins. ou eficientes. eu gosto de pensar numa família como algo que deveria apenas ser caracterizado como eficiente ou não. a família do pedófilo do bairro? nada eficiente. também não defenderei aqui a beleza da eficiência familiar. pois imaginem se a família do Kafka tivesse sido totalmente eficiente? não teríamos aqueles livrinhos, tão apetitosos, tão bonitos na prateleira de casa. a questão não é simples. e não serão os vlogueiros polissilábicos ou os pastores rábicos que resolverão a indecisão social. seremos nós. com as nossas famílias. dentro de nossas casas. sem deixarmos que nos digam como deveriam ser as nossas famílias. a sua família. cada um na sua. pois de família, já basta a minha.

- J.Castro

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tá vesga

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a culpa

No café da hora. Estou numa espécie de vitrine e vejo a gente normal passando, sendo normal de um lado para o outro, de lá pra cá e vice-versa. Não me sinto o estranho que tanto gosto de escrever que sou. Não sou estranho. E também não tenho referência moral para desenhar uma régua de caracteres e depois usá-la pra ficar cagando regra nas cabeças alheias. Nem acho que ser normal é algo ruim. É simplesmente ser, não é? Então isso é bom. Mas normal eu não sou, porque não consigo simplesmente ser, e continuo aqui, nesta vitrine de exposições zoológicas, sendo o contrário de um simplesmente ser. Vejo a todos como os homens e mulheres normais que realmente são e de como, no fim, somos todos iguais, normais ou não. Pois estamos enjaulados, cativos. Manequins de vitrine. Eu sou o manequim apático que escreve na vitrine do café da hora. Grande coisa.

A culpa é minha.

- Cato Ribeiro

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sendo documento

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