NÃO MEXE COM QUEM TÁ QUIETO

mexe

não me olha com essa cara de escritor fodástico. você faz novelas, romances, livros longos e chatos, ok. aí fica me encarando com essa cara de “poeta é raça inferior”? com essa feição de pura pose e essa modelete a tiracolo fingindo que está entendendo a nossa conversa enquanto dá mole pra mim? não me venha com essa presunção afetada pelas manhas do mercado editorial. eu não tô nem aí pra isso. pois a poesia já estava aí muito antes dessa merda toda. e continuará a nos atormentar ainda por muito anos depois do fim de todos esses esqueminhas. ela só se retirará do espetáculo quando o último ser humano sair do palco. quando os livros, as editoras e principalmente os escritores de quinta como você já tiverem se mandado desta pra melhor. então não mexe com a poesia, amigo, porque aí você está mexendo comigo.

- J.Castro




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você

maisdevc

sim, o meu tema é você. não o você, com esse artigo que serviria apenas para dar uma pincelada filosófica no inútil. de inútil pra inútil. mas você, sim, você aí. é você o meu tema. porque eu não consigo sair de mim. e eu preciso de uma base fora deste eu. pra enxergar o mundo. aí, onde está você. me olhando. você me olha e eu sinto uma certa compaixão da sua parte. uma energia boa, até. meio parecida com a pena. talvez seja pena. eu às vezes tenho certeza que você tem pena de mim. eu acho mesmo que você só não vai embora meio de pena. pois isso seria uma enorme sacanagem com o velho aqui. que só pensa em você. pensando numa maneira de inverter essa polaridade e colocar mais de você em mim. dessa maneira eu acabo por me conectar com o mundo. isso que eu falo, parece exagero, mas é só verdade. não é enfeite. a gente enfeita tudo nos dias de hoje. o enfeite não presta pra nada. só pra enfeitar. e ninguém gosta de um enfeite. esta que é a verdade. o enfeite é o estatuto da falsidade. pensemos bem. enfeitemos menos. eu e você aí, que tem pena de mim. abre esse mundo pra mim, por favor. sem enfeite.

- J.Castro

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FOI DITO

repito

não é que não foi dito. foi. mas é que precisava descriptografar. e eu não entrego o código, assim, de graça. senão, qual seria a graça? era preciso que você pegasse essas coisas no ar. fazer um esforço. você mesma não disse que era boa com esses troços de pegar no ar? pois bem, estava aí pendurado no ar o tempo todo. você não leu. o problema é meu? claro que é. sempre é. tudo bem. o código é esse aí. você vai vivendo e vai aprendendo. você vai me vivendo e vai me aprendendo. tá fácil assim? código fácil, eu sei. eu sou fácil. você que é lerdinha.

- J.Castro

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AMORVÍRUS

amorvirus

o amor é um vírus. ele fica por aí: ligado com o dentro. e fazendo um baita estrago. não precisa de quase nada pra sobreviver. e também não fica estacionado, esperando pelos meios ideais. é só aparecer um sistema orgânico meio abertinho, com a imunidade lá no chão, e pronto: ele pega. o amor pega. contágio puro. vírus folgado que atazana. as febres logo aparecem, junto com as dores na cabeça, e o coração, bem, esse aí quase se estropia inteiro. vírus de coração: o pior tipo. fica pra sempre no corpo, se fingindo de dono do ambiente. meio como um daqueles outros vírus que a gente não gosta nem de falar o nome e que ficam pra sempre grudados no corpo também. sem cura. enfiados nos cantos escuros. mesmo assim, é possível viver bem com essa merda instalada no seu corpo. o vírus fica e a doença meio que se esconde. é um acordo sacana. mas funciona.

- J.Castro

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O GURU

guru

(café da moda. dois amigos conversando)
- você tem que ir e ir.
- e tem outro jeito de ir? dá pra ir sem ir?
- claro que dá; e é exatamente o jeito que você está indo: sem ir.
- olha, eu só queria umas dicas…
- … de como chegar numas gurias, eu sei, e é exatamente sobre isso que nós estamos falando agora.
- você tem que entender, não é nada fácil pra mim…
- …sim, sim, um homem dos livros, um intelectual, prodígio das letras, mas que simplesmente não suporta mais o tipinho de menina intelectual da fefeléchi, eu sei.
- é muito difícil falar isso em voz alta: eu gosto de menina tipo paniquéti.
- e com certeza alguma menina tipo paniquéti vai gostar de você; por isso que eu te digo pra vir na minha.
- eu vou.
(aparece morena tipo paniquéti)
- olha lá. a morena. noventa graus.
- noventa graus pra onde?
- pra lá, porra.
- sim, gata. gata mesmo.
- imagina que beleza, essa mulher do seu lado, vocês assistindo ao, sei lá, Jogos Mortais…
- …o primeiro Jogos Mortais não foi tão ruim assim.
- não? que seja, que seja, porra; menos Linguística, mais língua!
- sim.
- menos Roman Jakobson, mais Scarlett Johansson.
- os sobrenomes nem se parecem tanto assim pra essa piada fazer sentido.
- não desconcentra, cara, presta atenção, foco na morena.
- foco na morena.
- você acha que ela quer conversinha mole? ela quer atitude, meu irmão.
- atitude.
- você acha que a natureza vai te perdoar se você deixar essa mulher escapar?
- não, claro que não, mas a gente tem que levar em consideração que é exatamente…
- …nada de exatamente aqui, cara. olha lá. tá passando. tá indo. menos discurso, mais atitude.
- mas o discurso não poderia ser exatamente…
(morena tipo paniquéti desaparece na multidão)
- foi embora, cara. você não merece as bolas que tem. deveria doá-las.
- não fala assim, você é o meu guru.
- não sou guru porra nenhuma. pois guru é que nem churrasqueiro…
- …que prepara as carnes para os outros?
- e só toma no cu.

(J.Castro)

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UM FLUXO MEIO COMPRIDO

meentendo


UM FLUXO QUE EU JÁ SEI QUE NINGUÉM LERÁ E QUE, POR ISSO, VAI TERMODINAMICAMENTE ACABAR NUM BURACO.

Pois é sempre na forma de uma continuação de achares que eu tento manter o fluxo de tudo, como se fosse necessária a existência deste eu aqui para a continuação do que quer que seja, o que dizer então de um fluxo que todo mundo concorda que é um fluxo e, por definição, vai continuar a ser fluxo até que as leis da termodinâmica venham cobrar os seus altos preços, e eu até posso considerar como essencial para essa movimentação de todas as coisas e linguagens e emoções e pessoas e segredos e sonhos este meu pequeno fluxo de pensamento que eu vou chamar apenas de eu mesmo (existem umas coisas meio inomináveis a respeito dele), e já que falamos de sonhos, eu abro um parêntese sem abrir parêntesis nenhum só pra dizer que às vezes um sonho é apenas um sonho, mesmo ele existindo como a construção meio empilhada de vários outros sonhos, e é muito racional sim pensar no meu pequeno mas limpinho fluxo de mim com mim mesmo como algo essencial para a manutenção de tudo no universo, o fluxo alfa, o fluxo guerra, é muito provável que tudo seja apenas uma guerra mesmo, ponto para o Heráclito, o obscurinho, isso se concordarmos com o fato de que ele tenha realmente existido, mas apenas se concordarmos que eu esteja existindo também (tenho lá minhas dúvidas sobre isso), eu vivo numa espécie de panfoco concentrado, cada vez mais concentrado e menor, eu sei que estou perdendo as visões periféricas, e as ideias periféricas, a realidade está se afunilando nela mesma, tudo está indo para o centro, que deveria estar em contraste com a periferia embaçada, mas ele está ficando turvo também, mexido, meu centro embaçado, e aí eu começo a pensar em doenças, cegueiras, tumores, tudo me passa por esta cabeça sem coração, eu me entendo nas incompreensões das pessoas e as pessoas nas minhas, acho isso belo, viver nas lacunas dos outros, todo mundo se embaralha na hora de se entender e vai deixando vários espaços vazios, aí algumas pessoas, tão loucas quanto os seus próprios espaços vagos, me colocam ali, nos vácuos, operação tapa-buraco, eu sirvo pra tapar os buracos das pessoas, eu acho isso uma coisa boa, eu só vejo bom sentido num buraco tapado, é um perigo a menos na vida, os buracos estão aí para serem tapados, eu não conheço ninguém que goste de um buraco, e é esta a minha função na vida, a pessoa me pega e tapa uma lacuna dela, o problema é que existem tantos tipos de buracos como existem pessoas, claro, então essas pessoas múltiplas acabam me usando para tapar múltiplos tipos de buracos, como os buracos sexuais, por exemplo, que são legais por um tempo limitado, ou os existenciais, que são chatos pacas, ou os trabalhistas, os financeiros, os simplesmente confusos, os sexuais, eu já falei esse, mas eu só repeti para parecer que eu trepo mais do que realmente trepo, pois não sobra muito tempo para essas diversões no final dos buracos, a gente precisa priorizar, maldição insuperável, esta de ser tapa-buraco do bem mais ou menos mal, eu sirvo pra qualquer buraco, só não me peguem pra jogar buraco, pois eu nunca fui muito habilidoso com nenhum tipo de carteado, está aí a minha prova de frouxice, é preciso ser muito homem para ficar sentado numa mesa verde e deixar que as cartas decidam a sorte por você, eu consigo ver a macheza nisso, claro, é preciso ser muito macho pra gostar de ficar ao redor dos outros machos, vejam as guerras, vejam os espartanos, vejam as saunas gay, e onde tem guerra, espartano e sauna gay, tem buraco, que é pra onde tudo acaba escoando mesmo, então três vivas e uma morte para o lugar onde tudo começa e acaba: o senhor buraco.

- Vaner Micalopulos

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EU NÃO ESTAREI LÁ

naoverei

Eu não verei a lenta decomposição de suas formas, as linhas que afundarão com força a sua pele. Eu não verei os tumores que se espalharão pelo seu corpo e nem os intestinos que se defenderão deles mesmos, expelindo sangue e mucos esverdeados de pura dor. Eu não verei as demências tomarem conta desse seu cérebro hoje tão juvenil. Eu não lhe verei ficando senil. Eu não estarei lá para aguentar os seus fracassos, seus problemas de autoestima, as doenças de mentira, as crises existenciais que sempre serão banais, os ossos quebrados, os problemas de visão, as tentações, os possíveis novos amores. Eu não estarei lá. Ainda bem.

— Vaner Micalopulos

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replicando você

repetir

cabelo de onda. figura clichê. mas é só pra começar. você vai ver. deixa eu ser assim no começo. depois faz tudo sentido. sempre do mesmo. a gente repete. e eu repito. muito mais do que ninguém. sou um replicador e tanto. uma das coisas que eu mais gosto de repetir: você. essa burrice sem tamanho. esse clichê monstruoso. essa metáfora fraquíssima. todo mundo gosta de um clichê. e todo mundo (raiva) gosta de você.

- J.Castro

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