falta queijo

queijo




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SURUBARTE

COLECIONADOR

o melhor elogio que já ouvi sobre o que escrevo: eu parei de ler os seus textos porque eles sempre me lembravam dela.
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a maneira certa de pensar é a seguinte: o meu erro de hoje será o trunfo do colecionador de amanhã.
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não posso deixar que os erros perturbem os acertos. você já percebeu como tanto se fala sobre erros e acertos? são os dualismos de sempre. eu tese: você antítese. tudo tão simples e bobo. a vida não é tão monogâmica assim. a vida é suruba.
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as pessoas temem novidades.
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não há novidade nenhuma nisso.
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então por que o medo da novidade? deixa a novidade se instalar.
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não sou contra os velhos. adoro os velhos. preciso dos velhos. a verdade é que eu reclamo, mas gosto do dualismo. sou bem careta mesmo.
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odeio suruba.

- J.Castro

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nunca-ninguém-nunca

seriabelo

não há cidade. há cidades. todas elas enfiadas nelas mesmas. infinitas esquinas que se cruzariam num lugar nenhum. há uma coisa bela em eternas ruas paralelas.

há uma coisa bela numa cidade onde nunca-ninguém se cruza.

seria belo um lugar assim: um repetitivo lugar nenhum. seria belo um lugar assim: onde ninguém mais se conhecesse, onde ninguém mais precisasse se cumprimentar, onde ninguém mais tivesse que estalar beijos hipócritas nos rostos de desconhecidos. seria belo um lugar assim: onde nos encontrássemos pela última vez. seria belo um lugar assim: onde eu me perdesse nas ondas magnéticas provocadas pelas forças misteriosas de sua pele sem sentido. seria belo um lugar assim: triste utopia magnética.

seria belo um lugar assim: uma cidade onde ninguém-nunca se cruzasse.

- J.Castro

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viravapor

vapor

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no nervo

nervos

das coisas que falamos: você me dá nos nervos. mas não fique nervosa. só por causa disso? coisa tão ínfima. eu realmente deixo as pessoas nervosas. é um dom. pois consigo ver os nervos como pequenas cordas esticadas no ar. aí eu puxo e deixo a onda de som espalhar o sentimento. pois tudo é questão de nervo. e música.

- J.Castro

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belos olhos é o…

infinitas

belos olhos. eu sei, todo mundo fica com essa de “belos olhos” o tempo todo. não sei como você aguenta. que seus olhos são belos isso está na cara. já que os olhos, eles também, estão na cara. os olhos da cara. então fica todo mundo com esse “belos olhos” pra lá e pra cá. eu prefiro outras partes. eu gosto do desenho que o seu cabelo faz quando você monta aquele coque estranho na parte de cima da sua cabeça. eu gosto do jeito que você dorme, claro, mas não pelo lado bonitinho e clichê do “gosto de te ver dormir”, não, pois eu gosto do bafo amanhecido, da cara amassada e dos ronquinhos misturados às risadas hipnagógicas que me assombram todas as noites. eu curto essas pequenas variações de humor que me dão a chance de ver o seu rosto em configurações infinitas, sempre uma diferente da outra. quando eu acho que não dá pra sua fisionomia ser mais sublime do que já é, aparece uma faísca de índole desconhecida e então uma curva diferente no olho faz com que eu me apaixone mais ainda. e eu nem sei porque estou falando essas coisas. bem, eu realmente não estou falando essas coisas, homem de silêncios que sou. eu penso mais do que falo. mas acho que com todo mundo é assim. então para de ser linda desse jeito. já deu. belos olhos.

- J.Castro

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pensamento de mosca

moscagem

olho a mosca. olho lá. penso: mosca pensa? caso pense, quanto pesa um pensamento de mosca? a mosca pensa. sim. ela tem linguagem. acho. vamos chamar essa linguagem da mosca de moscagem. é bom tomar cuidado com os termos. será que ela está pensando em alguma coisa quando raspa essas patinhas asquerosas umas nas outras? sei lá. às vezes ela está compondo uma sinfonia, quem sabe? uma sinfonia de mosca. acho que tô moscando, não? tô. quanto pesa o meu pensamento sobre o peso do pensamento da mosca? quanto pesa a quinta sinfonia do betôuven? eu sei que escrevi errado. mas, na verdade, eu não escrevi errado. todo mundo entendeu, não? quanto pesa esse meu erro que dá em acerto? mosca maldita. sai daqui. olho a mosca. saindo.

- J.Castro

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apocalipses

apocalipses

Esta pequena noite que resolveu aparecer bem no meio da tarde. Estranha essa luz, uma luz de noite quase aí. E ainda estamos com os restos do almoço dissolvendo no estômago. Não sou eu que estou inventando essa escuridão, isso eu sei, as coisas dentro de casa estão claras. Mas lá fora, uma luz estranha, que me faz pensar em apocalipses. O fim do mundo está aí. Não poderia ser hoje? Agora? Poderia. E não haveria ninguém por perto para dizer “eu te amo”.

- Vaner Micalopulos

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