BOBALEGRE

bobalegrice

Deve-se estar preparado para nunca mais recuperar aquela alegria de antes. Pois as pessoas confundem alegria com felicidade. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Elas podem estar juntas em parte, mas não num hipotético todo.

Deve-se estar preparado para nunca mais rir à toa. Deve-se estar preparado para uma pequena faixa de tristeza que irromperá às vezes no peito outrora alegre e ser feliz mesmo assim.

Deve-se estar preparado para nunca mais achar graça nas coisas que já foram engraçadas, naquelas épocas em que tudo era de uma alegria sem propósito, em que tudo era apenas um movimento automático de bobeiras e falsas alegrias. Pois a vida é uma sucessão de calamidades, algumas boas e outras nem tanto. A maioria é neutra. E só.

Deve-se estar preparado para encontrar a felicidade a todo custo, na alegria ou na tristeza (e mais na segunda do que na primeira). Sem bobeiras, sem risos frouxos, sem piadas babacas, sem aturar filas intermináveis para assistir ao comediante do momento, sem as fugacidades dos confortos modernos, sem as rotinas covardes que também nos enchem de confortos, sem nada daquilo que erroneamente consideramos ser a chave para a felicidade. E que nunca é.

A felicidade é uma porta sem chaves alegres. Basta abri-la. E entrar. O difícil é achar essa porta. Mas ela está por aí. Sem falsas alegrias, claro.

Deve-se estar pronto para nunca mais ser um bobo alegre. E ser feliz mesmo assim.

— Vaner Micalopulos




postado em por admin em prosa deixe um comentário

Assobio de sonho sujo

sonho

Vou no assobio que escuto sempre que atravesso essas aortas e essas artérias e essas veias. Numa viagem por dentro de mim mesmo, pelas vias circulatórias, um sonho que meu corpo produz sem querer, à procura das endorfinas que a vigília normalmente não dá. Numa montanha russa de pura loucura onírica, viajo dentro das minhas veias com um corpo astral de sonho sujo e assobiador. Um pedaço de um sonho sujo aí. Sibilante. Que me persegue. Não, não persegue. Está errado isso. É um sonho sujo – isso está certo – mas que simplesmente está enroscado em mim. Repetindo-se. Grande chateação. Sonho sujo que eu queria longe de mim. E que fica aí, assobiando nessa tormenta sem fim.

- Vaner Micalopulos

postado em por admin em prosa deixe um comentário

minúsculo escândalo

batonamesa

postado em por admin em poesia deixe um comentário

QUERIA SER FRODO

frodo

QUERIA SER FRODO

minha mão
não cabe no caderno.

não é que ela
seja grande.

ela seria grande
se eu tivesse o corpo
de um Hobbit.

meus pés são peludos
mas eu não sou
um Hobbit.

ultimamente quis ser
um monte de coisas e pessoas.

falta-me coragem
para tanto querer.

queria ser Frodo
queria ser Grisha
queria ser Waly
queria ser Vergílio
queria ser Aldous
queria ser Albert
queria ser Eu.

mas não sou ninguém
e fico a dever satisfações
com o Todo
por tanto insistir
nessa coisa de querer
ser os outros.

desse jeito eu me transformo
num triste engodo.

e é assim
que no final
eu só me rimo.

(Vaner Micalopulos)

postado em por admin em poesia deixe um comentário

A ESPERANÇA ME REVOLTA

esperanca

A ESPERANÇA ME REVOLTA

absurdo amor
que nunca voltará.

a esperança
é realmente
uma bela merda
(apesar de tanto afirmarem
o contrário).

fútil existência minha
transformando desesperanças
em algo mais do que as mesmas
de sempre e nunca esperanças.

eu espero a volta
mas eu sei que não tem volta.

puta revolta.

quem espera
nunca alcança.

é preciso correr atrás
sem esperança mesmo
e perceber logo
que não há motivo
para as tolas esperanças.

a esperança
me cansa.

mas espero
mesmo assim.

- Vaner Micalopulos

postado em por admin em poesia deixe um comentário

CAOS QUE PERTURBA

caos

postado em por admin em os gráficos deixe um comentário

RESPOSTA DE ACRÍLICO

acrilico

RESPOSTA DE ACRÍLICO

todas as discrepâncias
que me dão ânsias.
todos os carrascos
que me dão ascos.
eu coloco tudo numa balança
que é apenas o continuar
da mesma velha dança.

vejo através do meu olho
de falso vidro
a verdade de acrílico.

nada além de uma crítica
transparente
que escolhe o que é real
ou não.

eu acho que sou real
mas o acrílico me diz:
não é.

e deixo que a resposta
escolha por mim.

- Vaner Micalopulos

postado em por admin em poesia deixe um comentário

MACARRÔNICO

bubonico

MACARRÔNICO

nas coisas icônicas
nas conversas toscas
nos gestos biônicos
nos flertes de ar.

quando fico de longe
passeio por círculos
que emitem assobios
frios e histriônicos.

só quem está de fora
escuta.

corações alfinetados
num palco de ar
clamam por atenção
emitindo sinais subsônicos.

nas conversas janotas
e nos gestos mecatrônicos
eu incho antes do derretimento:
sou açúcar bubônico.

nas falsidades das filas
e nos amores eletrônicos
eu fico cada vez mais de fora:
fico macarrônico.

- Vaner Micalopulos

postado em por admin em poesia deixe um comentário
www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top