FORA DO SONHO

sai

FORA DO SONHO

acorrentado às memórias
preso ao passado
atormentado pelo nada
(o passado não existe)

os sonhos me zoam
e eu tomo tanto fora
num ato de puro sonhar
que já não sei mais
qual a diferença
entre vigília e sono

então você aí
que me aparece nos sonhos
só pra me pedir desculpas
pode parar
eu já entendi:
isso só me faz lembrar
que você nunca voltará
pra cá

para de me aparecer
desse jeito
(fazendo o favor)
os sonhos são meus

respeita o meu
espaço onírico

sai de lá
se não for
pra ficar cá

você me pede desculpas
e agora eu sei
que nunca mais teremos
um fica cá

- Vaner Micalopulos




postado em por admin em poesia deixe um comentário

TEMPO CHATO

tempo?

TEMPO CHATO

Somos feitos do agora. Agora mesmo, estamos nos construindo de vários agoras. Agora aqui. Agora lá. Existindo apenas neste instante, que nem é instante, pois é muito menos do que isso. Eu não sei o que é. Eu só sei o que não é: e instante não é. Então temos aí, nas mãos, essas infinitas possibilidades de futuros, para trás e para frente, e até mesmo várias opções de futuros que estão acontecendo agora. Mesmo assim, o futuro não é, não existe; e vivam com essa. Não tem nada feito, nem prato feito, nem jogo feito, está tudo em aberto porque tudo é agora e este agora é a consequência de inumeráveis outros agoras que reverberam uns sobre os outros, para trás e para dentro, projetando uma experiência do real experimentada por nós como essa patética flecha do tempo com a qual nos acostumamos e sobre a qual construímos toda nossa experiência da dita realidade. Fica tudo indo apenas de trás para a frente, eternamente, numa chatice cósmica. Uma flecha de trás pra frente, em duas dimensões, achatada. Chato. Um tempo chato. E a gente gosta dessa chatice. A gente até defende essa chatice. Eu fico aqui, cheio de mãos, sem saber o que fazer com elas. Tantas possibilidades. Tantas mãos. Tão pouco tempo. Tempo chato.

- Vaner Micalopulos
- ilustração de Thiago Micalopulos

postado em por admin em os gráficos, prosa deixe um comentário

XAOS

1492549_528505123923343_1195319447_o

é assim que eu gosto
este caos nada a ver
é assim que eu quero
este sentimento de estar
espalhado.

a única coisa que muda
no final dessas contas
é a ordem louca
dos números e das letras
no papel.

puro caos lógico.

é assim que eu gosto.

- Vaner Micalopulos

postado em por admin em poesia deixe um comentário

PEDRA VELHA

atenas

bebagua

bloco colunas

cores

costas

rebelde

traseira

PEDRA VELHA

sibilo entre as pedras velhas
num passeio com brisas jovens
(diminutos estouros
de ventos que mal nasceram)
por entre os mármores
que não devem ser tocados.

“senhor, senhor
sua filha está jogando pedras
e não é permitido
jogar pedras
aqui”

não é permitido
encostar nas pedras
da cidade alta
das pedras velhas?
é isso mesmo?

talvez seja por isso
que ninguém aqui
toque o meu coração.

no lento desintegrar
das tintas existenciais
sinto-me em conexão
com esta humanidade
de pedras e pigmentos
que nunca mais
serão.

eu me identifico
com essas pedras
tão velhas, tadinhas
muito além de uma eufemística
melhor idade.

eu me identifico
com esses mármores intocáveis:
alvos tão proibidos.

eu me identifico
com todas essas relíquias pétreas
essas pedras na melhor idade
pois eu vivo também
neste lento desaparecer.

só não consigo
encaixar a tudo
num eufemismo
que me faça ser mais
do que realmente sou.

sou menos.

e eu acho que uma pessoa
que impeça uma criança de brincar
num lugar como a cidade alta das pedras velhas
terá um lugar reservado no inferno
com toda a certeza do universo.

e o inferno de um estraga-prazer como aquele
só pode ser um lugar que seja só pedra:
as mesmas pedras intocáveis
que ele um dia protegeu
com tanto esmero babaca.

um cuidado que o colocará
num inferno de pedras imexíveis
como ele.

um neologismo
nem tão novo assim
para mexer
com nossas compreensões.

é impressionante
o apego que certas pessoas
têm pelas pedras.

e pelas compreensões também.

mas sei também
que algumas pedras velhas
realmente merecem
o meu apego.

muito mais do que certas pessoas.

sou o exemplo de gente
que olha a tudo
ou pelo ponto de vista da pedra
ou pelo ponto de vista da estrela
pois comigo é assim:
oitotenta.

mas por enquanto
ando mais pedra.

bem mais pedra.

sou todo
pedra velha.

- Vaner Micalopulos
(Atenas, janeiro de 2014)

fotos de Vaner Micalopulos;
modelo: ciganinha doida que não parava de seguir o poeta.

postado em por admin em poesia deixe um comentário

NÃO PRESTAR

saudade

PRESTEM ATENÇÃO NO MEU NÃO PRESTAR

ando sob garoas
na boa
num passo lerdo
de quem está querendo
pegar uma doença

não sinto
o lento encharcar
e torço pelas doenças
torço mesmo pelas destruições
eu quero algo
que me coloque no centro
das atenções

(cuidado com o que deseja
poeta)

é que não andam prestando
muita atenção
em mim

é por que não presto?

estou começando
a achar que sim

e acho que a chuva
limpará esse não prestar
eu acho só
mas sem botar muita fé nisso
(quem não deseja
não sofre)

pois é melhor mesmo
ficar só no achismo:
muito mais seguro

as certezas
criam dores novas
quando revelam
suas reais naturezas
de puros achismos

eu não me acho
nessa garoa
e também não fico doente
(sou homem
de sólida imunidade)

então volto pra casa
molhado
achando mais
do que antes:
sem solução

chovendo saudade

- Vaner Micalopulos

postado em por admin em poesia deixe um comentário
« Previous   1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14  
www.scriptsell.netBest Premium Wordpress Theme/Best Premium Wordpress Theme/ Top