fluxo cáustico

Um certo desencantamento cáustico desce pela uretra cada vez mais apertada, em golfadas azedas, está aí uma palavra que já usei muito, golfada, e eu nem sei exatamente o que ela significa, outro questionamento que sempre aparece, não saber as coisas, desculpa, sempre achei que um fluxo de consciência tivesse que ser algo parecido com um fluxo de uretra apertada, ou simplesmente uma exibição mecânica da quantidade de merda que a minha mente é capaz de produzir, mas não é só isso, eu faço assim porque é o jeito que sempre fiz e eu não mudei muito com o passar dos anos e também não acho que as pessoas devessem ficar mudando na vida sem pensarem muito de como se está mudando e para onde e por qual razão, acho que essa coisa de liberdade dinâmica precisa ser melhor analisada, posso até estar passando a impressão contrária sobre a minha pessoa, por causa da torneira de palavras que está sempre aberta, mas na vida sou bem fixo e bem parado e bem mesma coisa, eu não gosto nem mesmo de trocar as calças, pra mim uma calça recém-lavada em contato com a pele é um sacrifício de texturas químicas um tanto impossível de pôr em palavras, o que prova minha completa inadequação como escritor, já que sou incapaz até de descrever um transtorno tão simples como esse, um transtorno tão comum, não conseguir colocar as calças, mas imaginem também como faria mal a minha imagem se eu conseguisse ser um primado em eficiência, não, ninguém quer um escritor tão eficiente assim, ninguém quer um escritor que se esqueça da vida enquanto escreve, sempre com o mesmo roupão imundo, transformando o nada em palavra, não, pois é preciso guardar um tempo para os autógrafos em livrarias assépticas, pois o lirismo está morto e as livrarias estão repletas de figurinhas higienizadas, ninguém quer o antigo lirismo de volta, com aqueles imundos líricos de antigamente que se esqueciam, em meio às palavras que explodiam em progressão geométrica na mente, de vestirem uma roupa adequada para saírem à rua quando precisavam de café.

- Vaner Micalopulos
*ilustração de Thiago Micalopulos




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agora

coisas

fogefode

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há sábado

há primeiro: um acordo melado
de que se ficará apenas
pelo tempo necessário
para melhor conhecer
as saídas dessas melecas.

há segundo: a necessidade
de acreditar que o tal
tempo necessário
nada mais é do que
as ramificações impossíveis
de um eterno vamos ver.

há terceiro: a ilusão de cristalização
e a incabível suposição de que existirá
qualquer coisa parecida
com um inatingível pra sempre.

há quarto: o desacordo
com a ruptura sempre real
do delírio abstrato
e a percepção
de que o acordo melado
nada mais era
do que mania de quarto.

há quinto: as mentiras
e o olho ensaiado de quem
muito repete
eu não minto.

há sexto: as brigas que deixaram
de parecerem bonitinhas há muito tempo
para serem apenas um puro ódio
em forma de texto.

há sábado: e tudo fica bem.

- Vaner Micalopulos

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SONHO VOCÊ

SONHO VOCÊ

quando sonho
com você
na verdade
não é com você
que sonho.

nos meus sonhos
você não é mais
você.

nos meus sonhos
você não é menos
você.

nos meus sonhos
você é mais ou menos
você.

um rascunho de você
aparece como se fosse
você
e eu pergunto:
“como está você?”
e você já me prepara:
“eu não sou mais eu”.
nos meus sonhos
você reaparece daquele nada
tão repetitivo
aquele nada de sempre
e eu pergunto:
“como você está?”
e você responde, já meio puta:
“não queira saber”.

mas eu quero.

então você me diz
que voltou prum ex-namorado
que eu nem sabia que existia
um negrão enorme
racista e homofóbico
que está a caminho duma guerra
sei lá em qual inferno
e ele lhe domina
dum jeito que eu nunca fui capaz
de dominar.

aí eu dou
uma acordadinha
de leve
e logo volto a sonhar.

num ato contínuo desfragmentado
estamos no Tibete
e eu devo admitir que sua cara
já não está lá grandes coisas
e nem você exerce mais
aquela atração supergravitacional
do passado
(ou talvez seja apenas o Tibete
que provoque isso nas pessoas)
e estamos diante de um prostíbulo chinês
e você está sentada numa pedra
recusando-se a fazer sexo
com um lama albino.

você
não está
tão bela
como antes.

outra acordadinha
pra verificar
e volto ao sonho.


estamos lá com o namorado negrão
mais uma vez
tipo herói de guerra americano
todo mergulhado na arrogância
de suas próprias incertezas
(você sempre gostou
de pessoas que não sabem nada
mas parecem saber alguma coisa)
e você está bela
de novo
e então eu percebo
que meu subconsciente babaca
acha-lhe mais bela
se você estiver dando
prum negrão fardado
do que não dando
prum lama albino
e eu penso:
“isso é racismo!”.

aí eu acordo
de vez.

nos meus sonhos
você é mais ou menos
ninguém.

- Vaner Micalopulos

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o nada

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detalhes do Barganha

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motivos

I)
não vou
pois não quero encontrar
pessoas indesejadas
e que apenas são assim
porque eu as desejo muito
sem que elas me desejem de volta

II)
a melhor maneira
de sentir algo
em seu mais profundo sentir
não é inspirando com força
na hora de sentir
este sentir?

III)
você me quis
pelos motivos errados
e agora você é
o meu motivo errado

IV)
como é que pode
agora
você nem saber
da minha existência
depois que fui
(segundo você)
o único motivo
da sua existência?

V)
se eu estivesse em casa
estaria debaixo
de um cobertorzinho

VI)
esta noite
eu queria um motivo
para tingir a minha caneta
com sangue

VII)
lembrete:
não me matar
por mulheres
que não se matem
por mim

VIII)
“se o Proust fez, eu também posso fazer”

IX)
bato na mesma tecla
mais de duas vezes
só pra não entender
nada, nada, nada
mais de duas vezes

X)
não vou
pois não quero encontrar
pessoas indesejadas
ok?

- Vaner Micalopulos

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cardiocoisaboa

veias batidas
corroendo os anos
e remoendo as correções
agora impossíveis de serem feitas.

corroo correções irrealizáveis.

condição perfeita que se condiciona
numa cardiopatia sempre quase aí.

hoje meu coração deu aquele pulo
e eu lembrei da minha vó
que sempre dizia:
hoje meu coração deu um pulo;
agora eu sei que isso não é coisa boa.

cardiocoisaboa. eu queria que fosse.

- Vaner Micalopulos

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