dores

dor

Um tiro na perna. Um chute no saco. Um extirpar ligeiro do lóbulo da orelha. Um deslocamento maneiro da rótula. Um pedaço do cérebro a sair pelo nariz, como naquelas múmias egípcias, prontas para a eternidade. Uma bomba que explode no peito de algum fanático muçulmano, preparado para as setenta e duas virgens que ele nunca verá. Um coquetel molotov estourando no rosto de um policial pai de família. Uma bala de borracha no olho. Uma flecha entrando suavemente no peito de uma ave em extinção. Uma armadilha de urso enferrujada cravando fundo no tórax de um coelho desavisado. Um torvelinho de sangue entrando errado na aorta. Um último brilho de olho da criança que se vai. Uma música que abre dolorosamente todos os poros da pele (e que mesmo assim a gente insiste em ouvi-la sem parar). Uma declaração de amor falsa. Um gemido de fome da criança africana que não passará de amanhã (e o choro do voluntário suíço que não conseguirá fazer nada para evitar isso). Uma queimadura química no rosto belo (anjos derretidos, anjos derretidos, anjos derretidos). Uma primeira vez a perceber os sintomas daquela demência irreversível. Uma pena de morte aplicada antes que se viva. Umas dores que me explodem sem fim no peito sem fundo. Um peito sem fundo. Um peito. Um fundo. Uma dor. Todas em uma. Apenas uma. É o bastante.

- Vaner Micalopulos




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nunca mais

nuncamais

todo rosto novo
que me aparece pela frente
é por alguns instantes
uma fração
de algum outro rosto
que já sumiu da minha mente.

então imaginem só
o que é esta minha existência
de passado misturado
com presente.

nada fácil.

às vezes um rosto
é mais insistente
do que os outros
e acabo por enxergar
todos os rostos
num só.

passado e presente
num só nada fácil
nunca mais.

- Vaner Micalopulos

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deixa o vício

vicio

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heresia

heresia

HERESIA FODA DE GOSTOSA

no gosto da tinta
debaixo da língua
estourando pelos poros
dessa sua pele
foda de gostosa
está o preto no branco
que me impele
às heresias.

a heresia foda de gostosa.

eu queria
quando você não quis
e até acho
que você só passou a querer
quando eu já nem tinha certeza
se queria ou não
(queria sim).

querer
não querer
por que nos afundamos
em tanto desquerer?

eu só queria
uma simples heresia
foda de gostosa.

e aí veio você.

carregando nas tintas
do querer.

- Vaner Micalopulos

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POEMA(NÃO)PLANEJADO

PICA

POEMA(NÃO)PLANEJADO

eu nunca planejei
um texto que fosse
na minha vida inteira.

apenas os ruins:
esses foram planejados.

catástrofes anunciadas.

e não sei bem o que dizer
sobre este aqui que começa a se formar
mas eu já sei que ele será um texto metido
por já ter começado com metalinguagens floridas
e manobrinhas maneiras de espelho.

não direi se ele foi planejado
ou não.
(faz parte do mistério
manter o mistério)
isso eu deixarei pra vocês
adivinharem.

e eu até já dei uma dica
pois disse que o poema planejado
é aquele que ruim fica.

(espaço reservado
para dizer que pintou uma vontade freudiana
de rimar o óbvio com o óbvio e dizer “pica”)

eu perco a amizade
mas digo: pica.

está na cara
que este poema
não foi planejado:
então ele será dos bons
(apesar das picas).

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íntimo do caos

xaos

FAZENDO A ÍNTIMA COM O CAOS

Eu quero sentir o caos deslizando pelos dedos das minhas vãs babaquices. Eu quero sentir esse efeito de falsa autoestima bailando entre os pelinhos dos meu braços. Eu quero sentir o gosto do clichê na ponta da língua e experimentar o azedume de um amor fingido subindo pelo fígado em ondas sônicas do mais puro ranço hepático. Eu quero sentir as pontas do cabelo dela. Meio tarde para fazer sentido. Meio tarde para ser inteiro. Não me importo com essas amputações. Elas estão aí pois cumprem um papel importante na cadeia de falsidades, são atores importantes neste teatro do caos-da-boca-pra-fora (não se finjam entendidos em caos, por favor). Eu não lembro mais das pontas do cabelo dela. A memória, sempre nos protegendo. Fazendo sumir as lembranças ácidas. Boa memória. Seletiva. Funcionando de um jeito desfuncional. Não sei o que é o caos. Eu sou grego, mas nem tanto. Mas sei o que é a bagunça: está aí o meu lado brasileiro falando. Eu quero bagunça. Que é pra sentir o caos, logo de manhã, batendo na janela, montado num Dioniso coberto de sangue, perguntando se eu não estaria a fim de fazer uma bagunça por aí; eu apenas olharia no fundo dos olhos infinitos de Dioniso e ele me lançaria uma explosão solar em forma de desafio (e eu quase consigo ouvir sua voz quando ele faz isso, uma voz que é muito parecida com o assobio simpático de um golfinho esperto), mas eu não iria muito com a cara dessa alegria toda, dessa euforia de vinho com gás, e simplesmente não daria ouvidos. Não deem seus ouvidos a Dioniso. Ele é um canalha dos grandes. Eu recuso o convite e peço para ambos saírem da minha janela, pois estão tapando o meu sol de mentira. Eu não uso o caos em vão. Dioniso sabe disso, esse deus atentado, mesmo assim ele aparece, só para atazanar. É isso que dá se fingir de entendido em caos. Os dois (eles nunca se separam) começam com essas tentações. É que nem bêbado chato em festa: não pode dar bola. Então eu não dou atenção. Fecho a janela. Sinto o caos formando-se naqueles pequenos fosfenos que brilham com insistência ao fechar minhas pálpebras de treva pura e tento me contentar apenas com isso. Lembro das pontas do cabelo dela. Maldita. Esqueço. Viro de lado e sinto o caos querendo fazer conchinha. Muito gay. Desviro. Eu sinto o caos em todo lugar e continuarei a repetir isso até que ele bata na minha janela novamente, montando Dioniso, com seus desafios de criança chata. É melhor do que nada, acho. Eu sinto o caos chegando perto, querendo fazer a íntima. Eu não faço a íntima com o caos. Eu sou o caos. Mas só nas horas vagas. E nos feriados. Está na hora de fazer a íntima comigo mesmo.

- Vaner Micalopulos

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O CARA DA FRANJA

franja

O CARA DA FRANJA

vou escrever um poema pra você aí
que está aturando o cara da franja.

não sei se você merece
já que está aí
com o cara da franja.

o esforço não valerá
levando em consideração
que você está aí
com o tal cara da franja.

você é linda
mas deve ter algum problema
já que está aí
gastando sua vida
com o cara da franja.

então não perderei
este meu tempo irrecuperável
escrevendo poemas pra você
que fica aí suportando o cara da franja.

e eu já perdi mais tempo do que pretendia
só escrevendo que não escreverei
um poema pra você
que está aí se lambuzando
com o cara da franja.

então já era
você não me manja
e o pior de tudo
é que no final das contas
eu desperdicei parte da minha vida
escrevendo um poema aí
sobre o cara da franja.

- Vaner Micalopulos

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TITÃS ENTEDIADOS

titas

TITÃS ENTEDIADOS

as almas puras
esperam pelos derretimentos
das ilusões
das falsas seguranças
das promessas vazias
por uma verdade
que só encolhe.

BAD THINGS WILL FOLLOW

cato mitologias
com as pontas dos meus dedos
(tão lógicos
tão pretensamente lógicos).

reinos mágicos
devorados pelas chamas débeis
dos dragões na melhor idade
e das putas zombeteiras
dessa boca do lixo
(sem dentes, claro)
pingando vapores sulfurosos.

trolls jogam maldades
nesta existência pacífica
que espera apenas
pela paz de um nada pra fazer
(faz a paz
que me satisfaz
faz).

lá se vão uns milhares de anos
desde que a doce inocência traiu-me.

a inocência me trolou.

aventuro-me pelas trilhas
duma mágica putaria
e baixarias disfarçadas
pelo pó das fadas
e curupiras fritantes de pés certos
a indicarem o caminho errado
(sempre).

talvez chova mais tarde
mas isso não muda nada.

elfos duendes hobbits
caiporas sátiros erínias
unicórnios druidas pererês

(todas essas mentiras
aparecem-me mais fácil
do que as pessoas de verdade
que deveriam aparecer
mas nunca aparecem).

num banquete de mentiras coloridas
coloco-me à disposição
de quem estiver disposto
a colocar-se com esses mantras
tão estragados.

cantorias esfumaçadas
de uma época
que está para chegar
escondendo a verdadeira natureza
dessa encruzilhada infecta.

eu não como
no chão.

quem faz isso
é exu.

linhagens inteiras
exterminadas com o sopro melado
de anjos teratogênicos
criados por deuses preguiçosos
e por uma farmacopeia
de tarjas pretas e efeitos colaterais
que fazem os titãs rirem
dessa preguiça divina.

um espetáculo
para titãs entediados.

desligo o sonho.

e vou dormir.

- Vaner Micalopulos

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