TEMPO CHATO

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TEMPO CHATO

Somos feitos do agora. Agora mesmo, estamos nos construindo de vários agoras. Agora aqui. Agora lá. Existindo apenas neste instante, que nem é instante, pois é muito menos do que isso. Eu não sei o que é. Eu só sei o que não é: e instante não é. Então temos aí, nas mãos, essas infinitas possibilidades de futuros, para trás e para frente, e até mesmo várias opções de futuros que estão acontecendo agora. Mesmo assim, o futuro não é, não existe; e vivam com essa. Não tem nada feito, nem prato feito, nem jogo feito, está tudo em aberto porque tudo é agora e este agora é a consequência de inumeráveis outros agoras que reverberam uns sobre os outros, para trás e para dentro, projetando uma experiência do real experimentada por nós como essa patética flecha do tempo com a qual nos acostumamos e sobre a qual construímos toda nossa experiência da dita realidade. Fica tudo indo apenas de trás para a frente, eternamente, numa chatice cósmica. Uma flecha de trás pra frente, em duas dimensões, achatada. Chato. Um tempo chato. E a gente gosta dessa chatice. A gente até defende essa chatice. Eu fico aqui, cheio de mãos, sem saber o que fazer com elas. Tantas possibilidades. Tantas mãos. Tão pouco tempo. Tempo chato.

- Vaner Micalopulos
- ilustração de Thiago Micalopulos





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